A Arte da Guerra: um livro que Trump desconhece, por José Ricardo Porto

Foto: Reprodução/Flickr/White House

O clássico A Arte da Guerra, atribuído ao estrategista chinês Sun Tzu, atravessou milênios ensinando que inteligência, paciência e cálculo estratégico costumam valer mais do que bravatas, impulsos ou confrontos permanentes.

Mas, observando o estilo político de Donald Trump, muitos analistas teriam a impressão de que o Presidente americano jamais abriu as páginas do velho manual chinês.

Sun Tzu ensinava que “a suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar”. Trump, ao contrário, transformou o confronto em método permanente: guerreou contra adversários políticos, imprensa, aliados internacionais, universidades, órgãos de investigação e até integrantes do próprio partido.

Na lógica do estrategista chinês, vencer exige reduzir conflitos; na lógica trumpista, o conflito parece ser o próprio combustível político.

Outra frase célebre do livro afirma: “Toda guerra é baseada no engano.”

Sun Tzu via a estratégia como um jogo de inteligência silenciosa, cálculo e percepção psicológica do adversário. Já Trump frequentemente substitui a sutileza pela explosão pública, pela reação imediata e pelo embate verbal diário — um estilo que mobiliza apoiadores, mas também amplia tensões e desgastes.

O mestre chinês também advertia: “Nenhum líder deve colocar tropas em campo apenas por raiva.”

A frase parece escrita para os tempos modernos. Em diversos episódios internacionais e domésticos, Trump demonstrou agir mais movido pelo impulso político e emocional do que pela prudência diplomática recomendada pelos estrategistas clássicos.

Há ainda outro ensinamento lapidar de Sun Tzu:

“ Conhece teu inimigo e conhece-te a ti mesmo; se tiveres cem combates a travar, cem vezes serás vitorioso.”
A máxima sugere autocontrole, compreensão dos limites e leitura refinada do cenário. Na política contemporânea, porém, a velocidade das redes sociais muitas vezes premia exatamente o oposto: o improviso, o espetáculo e a polarização.

Sun Tzu ensinava também que “em meio ao caos, também existe oportunidade”. Trump parece ter compreendido apenas metade da frase: o caos.

A oportunidade estratégica, segundo o pensador chinês, nasce da disciplina, da paciência e da capacidade de prever movimentos futuros — não apenas da produção incessante de turbulência.

Séculos depois, A Arte da Guerra continua atual porque trata menos de batalhas militares e mais da natureza humana.

E talvez esteja exatamente aí a grande ironia contemporânea: num mundo dominado por líderes explosivos, o velho general chinês ainda insiste em ensinar que os maiores vencedores são justamente aqueles que evitam guerras desnecessárias.

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