A histeria política estimulada

8 de janeiro

 

​Desde 2014, quando a presidente Dilma Rousseff foi afastada do governo, o Brasil vive um clima de histeria política ou doença sociogênica em massa. As relações humanas foram corroídas, rompendo laços familiares e de amizade por conta de divergências político-ideológicas.

Quando a histeria se espalha pela sociedade, o diálogo desaparece. Desenvolve-se um processo emocional que induz a comportamentos automáticos de intolerância, colocando os instintos acima da razão e, por conseguinte, rejeitando qualquer pensamento contraditório. Revelam-se, assim, manifestações de patologias sociais, com a histeria passando a comandar a política nacional.

​O dia 8 de janeiro de 2023 foi uma demonstração clara dessa conduta histérica. Uma massa enfurecida, alimentada pela desinformação, destruiu símbolos de nossa nação, de nossa história e de nossas lutas, reivindicando o retorno da ditadura. Um surto coletivo que ocasionou um espetáculo de barbárie nunca antes visto no país. Sem dúvidas, foi um movimento organizado e articulado previamente pelas redes sociais.

​Essas reações em massa são potencialmente explosivas, afetando pessoas agrupadas circunstancialmente e tornando-as vulneráveis à manipulação por meio de mecanismos de desinformação com propósitos políticos. Verifica-se, então, o compartilhamento de uma mesma identidade social e evidencia-se uma conexão intersubjetiva, manifestada em um acordo de vontades, seja tácito ou expresso.

​O psicólogo francês Gustave Le Bon, ainda no século XIX, já afirmava que “as multidões exercem uma influência hipnótica sobre seus membros”.

Protegidos pelo anonimato, os indivíduos imaginam estar impunes, pois abandonam sua responsabilidade individual para se incorporarem à prática de crimes multitudinários. São insuflados a cometer atos que, individualmente, jamais praticariam. A participação, no entanto, configura a vontade criminosa, o que justifica a responsabilização pela conduta ilícita,até porque, em situações como essas, a individualização precisa da conduta de cada integrante da turba torna-se complexa. Muitos acabam pagando um alto preço por terem aceitado participar de um ato de histeria política. Como “massa de manobra”, agem sob a influência de lideranças que se afastam presencialmente do episódio, deixando os seguidores ao risco da aventura a que foram impulsionados.

​Revisar a legislação para beneficiar ou anistiar os envolvidos no 8 de janeiro é um estímulo ao movimento permanente de ataque ao Estado Democrático de Direito. Propostas que visam suavizar as penas transmitem uma mensagem de tolerância a crimes graves contra as instituições, gerando uma perigosa sensação de impunidade.

Lamentavelmente, ao contemporizar com aqueles que praticam atos antidemocráticos, como observado em votações recentes no Congresso Nacional, corre-se o risco de fragilizar a democracia. Não se faz justiça com complacência a criminosos.

Rui Leittao

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