Creio que a intenção de Roberto Carlos, quando compôs “Esse cara sou eu”, foi traçar o perfil do homem idealizado por toda mulher: romântico, dedicado, fiel. No entanto, ao interpretar bem a letra, você descobre no “eu lírico”, em alguns momentos, o comportamento de um sujeito possessivo, dominador, grudento. Fico na dúvida se “esse cara” que o personagem da canção assume é o homem dos sonhos de todas as mulheres.
“O cara que pensa em você toda hora/Que conta os segundos se você demora/Que está todo o tempo querendo te ver/Porque já não sabe ficar sem você.” Tudo bem, essa é uma declaração de amor. Qualquer “cara” realmente apaixonado pensa na sua amada a todo instante. Fica ansioso pelo próximo encontro, porque descobriu que sem ela a vida perde a alegria, o sentido, a emoção. Nada de anormal. Esse sentimento toda namorada gosta de perceber na pessoa com quem está vivendo uma história de amor.
“E no meio da noite te chama/Pra dizer que te ama/Esse cara sou eu”. Acorda a amada para proclamar sua paixão. Quer que ela nunca duvide disso. Daí a necessidade de falar a todo instante, mesmo nas horas mais impróprias.
“O cara que pega você pelo braço/Esbarra em quem for que interrompa os seus passos/Está do seu lado para o que der e vier/O herói esperado por toda mulher”. Começa o exagero nos cuidados. Torna-se truculento, disposto a brigar por qualquer coisa que a desagrade. Deixa uma impressão muito nítida de que se acha o “dono” dela e se arvora na condição de um “herói”, o superprotetor da mocinha indefesa. Fico a me perguntar se é esse o tratamento que deseja uma mulher. “Pega pelo braço”, uma afirmação que reflete poder de dominação, força.
“Por você ele encara o perigo/Seu melhor amigo/Esse cara sou eu”. O corajoso, o destemido, novamente a postura de protagonista de episódios de enfrentamento do perigo, em nome do amor. O melhor amigo, sim, é uma necessidade para que haja confiança recíproca em todas as horas e circunstâncias.
“O cara que ama você do seu jeito/Que depois do amor você se deita em seu peito/Te acaricia os cabelos, te fala de amor/Te fala outras coisas, te causa calor”. O romântico, essa característica seduz qualquer mulher. Carinho, adequação plena na realização do ato de amor, a tranquilidade que passa no pós-prazer da relação sexual, as juras de comprometimento nesse envolvimento, o calor que provoca, são componentes importantes para a conquista permanente da mulher que ama.
“De manhã você acorda feliz/Num sorriso que diz/Esse cara sou eu”. O extremo do convencimento, se julga o melhor dos amantes, peça rara no mundo do romantismo.
“Eu sou o cara certo pra você/Que te faz feliz e te adora/Que enxuga seu pranto quando você chora/Esse cara sou eu/Esse cara sou eu”. Nem espera que ela fale que escolheu a pessoa certa. Ele próprio se julga o “cara” perfeito para ela. Ora, enxugar os prantos de sua amada é algo indispensável em qualquer relação. Se não existisse isso não haveria cumplicidade, companheirismo, devoção, em tudo o que vivessem juntos.
“O cara que sempre te espera sorrindo/Que abre a porta do carro quando você vem vindo/Te beija na boca, te abraça feliz/Apaixonado te olha e te diz/Que sentiu sua falta e reclama/Ele te ama/Esse cara sou eu”. Os enredos de amor devem ser sempre, preferencialmente, acontecimentos que nos façam sorrir de alegria. Ponto para o “cara” que consegue arrancar sorrisos de felicidade da mulher amada a todo o momento. O cavalheirismo define bem o homem romântico, e isso é de agrado do universo feminino. Elas se deliciam com frases apaixonadas, a revelação da intensidade do amor que domina seu coração, a cobrança da presença permanente ao seu lado.
• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.
