O que se esperar do encontro de dois gênios? Uma obra prima. “A moça do sonho” é o resultado da parceria de Chico Buarque e Edu Lobo. Uma poesia cantada. O “eu lírico” fala da mulher dos seus sonhos, num desejo incontido de que fosse real. Foi composta para a peça de teatro Cambaio, estreada em 2001.
“Súbito me encantou a moça em contraluz/arrisquei perguntar: quem és?/mas fraquejou a voz”. No sonho conseguia visualizar a mulher dos seus desejos. Sua imagem não era muito clara porque estava sombreada por uma contraluz. Não dava para perceber com nitidez os traços de sua fisionomia. E por isso se arriscava a perguntar quem era. Mas, tomado de emoção, não conseguia falar, a voz fraquejava.
“Sem jeito eu lhe pegava as mãos/como quem desatasse um nó/soprei seu rosto sem pensar/e o rosto se desfez em pó”. Desajeitado, nervoso, com certa timidez, procurava encontrar as mãos dela, como se assim pudesse desvendar esse idílio. Soprando seu rosto, com tristeza, verificou que ele se desfez em pó, sumiu.
“Por encanto voltou cantando a meia voz/súbito perguntei: quem és?/mas oscilou a luz/fugia de mim devagar”. Como se fosse uma magia ela voltou sussurrando uma canção. Resolveu novamente perguntar quem era. Mas numa luz que não lhe permitia enxergar bem, sentia ela fugir novamente, devagarinho.
“E quando a segurei gemeu/o seu vestido se partiu/e o rosto já não era o seu”. Procurando evitar a fuga, enfim a segurou. Viu ela gemer, não sabe se por prazer ou dor. E o vestido se desfez, desapareceu, mas não conseguia vê-la nua. No seu rosto não identificou a mulher dos seus devaneios.
“Há de haver algum lugar/um confuso casarão/onde os sonhos serão reais/e a vida não”. Fica a pensar se não seria melhor que vivêssemos os sonhos e não a realidade. Porque os sonhos são manifestações dos desejos, das vontades, daquilo que pretendemos viver. A realidade é muitas vezes dolorosa, cruel. Muito bom que houvesse esse lugar onde os sonhos tivessem a energia do real.
“Por ali, reinaria meu bem/com seus risos, seus ais, sua tez/e uma cama onde à noite/ sonhasse comigo, talvez”. Nesse local ela seria a rainha que lhe fascinaria todos os dias com seu sorriso, seu rosto de beleza deslumbrante e seus gemidos de prazer. Lá teria uma cama onde, quem sabe, a cada noite ele se fizesse presente nos seus sonhos.
“Um lugar deve existir/uma espécie de bazar/onde os sonhos extraviados vão parar”. Quando os sonhos desaparecem, se findam, o que fazer para revive-los? Onde encontrá-los? Devia haver um ponto de oferta, para que pudéssemos localizar aqueles que se foram e que a gente está ansioso para que ressurjam.
“Entre escadas que fogem dos pés/e relógios que rodam pra trás/se eu pudesse encontrar meu amor/não voltava jamais”. Nem que “as escadas fujam dos pés” tentando impedir o subir em busca do encontro da mulher amada. Nem que o tempo volte atrás, querendo que não persiga um futuro em que possa encontrar o seu amor. Nada evitará que continue nessa busca, e quando enfim ele for encontrado, não voltará jamais a ser quem é hoje.
• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.