Juca Chaves ficou conhecido por ser um compositor irreverente, as letras de suas músicas continham sátiras políticas. Na década de sessenta, ao seu estilo, em canções bem humoradas, fez críticas a todos os presidentes da época. Por isso mesmo, quando da ditadura militar, teve que se exilar em Portugal, em 1970. Sem alterar seu temperamento, em lá chegando, satirizou o governo Salazar, sendo obrigado a ir embora para a Itália. No entanto, o humorista Juca Chaves transforma-se no poeta romântico ao escrever a música “A cúmplice”, quando numa letra belíssima revela a imagem da mulher dos seus sonhos, a mulher perfeita que deseja ter como sua companheira.
“Eu quero uma mulher que seja diferente/De todas que eu já tive, de todas tão iguais”. Juca declara, a partir de sua experiência pretérita nos amores vivenciados, que quer uma mulher diferente das que conheceu um dia. Quer uma mulher ímpar, que faça a diferença, que atenda todas as suas exigências para se afirmar como perfeita para ele.
“Que seja minha amiga, amante, confidente;/A cúmplice de tudo o que eu fizer a mais”. Não basta ser companheira, tem que ser solidária em todos os instantes e circunstâncias, tem que ser amante a qualquer tempo e de todas as formas, tem que compartilhar segredos. Enfim, tem que ter cumplicidade em ações e desejos.
“No corpo tenha o Sol, no coração a Lua,/A pele cor de sonho, as formas de maçãs”. O sol nos transmite calor, brilho, luminosidade. Então, espera que assim seja seu corpo, ardente e iluminado. A lua representa o romantismo, a paixão. Assim para ele, é importante que no seu coração haja esse sentimento puro e poético, como a lua produz. Na pele toda a beleza de um sonho desejado, um devaneio nascido de uma maravilhosa inspiração. E que tenha formas tão delicadas quanto às de uma maçã.
“A fina transparência, uma elegância nua,/O mágico fascínio, o cheiro das manhãs”. Tem que ser transparente, verdadeira, translúcida, mas que também tenha a aparência de uma deusa nua, revelando toda a elegância de uma mulher divina. Alguém que embriague, encante, enfeitice, e a todo instante produza a sensação prazerosa de sentir o cheiro de um dia ao amanhecer, renovador, pleno de entusiasmo e de alegria de viver.
“Eu quero uma mulher de coloridos modos/Que morda os lábios sempre que for me abraçar”. Nada mais sedutor numa mulher do que seus modos que expressam charme, formosura, fascinação. Imagina ver na sua amada a correspondência de felicidade pelo seu amor, ao perceber quando lhe abraça, numa manifestação de alegria emocionada “morder os lábios”, fazendo com que sua imagem fique muito mais apaixonante.
“No seu falar provoque o silenciar de todos/E seu silêncio obrigue a me fazer sonhar”. Anseia ter ao seu lado uma mulher inteligente, que saiba falar o certo no momento adequado, levando as pessoas, que a ouçam, silenciarem em sinal de respeito e admiração. E que possa, ao percebê-la calada, fazer com que ele fique curioso em descobrir o que passa pela sua cabeça, construindo fantasias, sonhos, enlevos.
“Que saiba receber, que saiba ser bem vinda/Que possa dar jeitinho a tudo que fizer”. A postura de quem conhece o quando, como e onde deve chegar e sair, sem ser apontada como inconveniente ou inoportuna. Saiba acolher da mesma forma que oferecer. Que tenha sagacidade para encontrar solução para pequenos problemas sem irritação e sem perder o bom humor, que tenha presença de espírito diante das dificuldades.
“Que ao sorrir provoque uma covinha linda;/De dia, uma menina; à noite, uma mulher”. No sorriso esteja a marca inigualável de uma covinha no rosto que tanto provoca seu deslumbramento. Durante o dia perceba nela a pureza, a ingenuidade, a candura, de uma menina, e na noite, encontre o fogo intenso, a atração tentadora, a paixão desinibida, de uma mulher nos braços do seu amado.
Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.