Um ano após o golpe de estado que mergulhou o país numa página negra da nossa história, quando convivemos por mais de duas décadas com uma ditadura militar, Roberto Carlos lançou a música “Quero que vá tudo pro inferno”, composta em parceria com Erasmo Carlos. Foi um estrondoso sucesso. Deu início a era da Jovem Guarda na MPB. O sentido da música era romântico, mas causou um impacto enorme a partir do seu título. Roberto falava da saudade enorme que sentia de sua namorada, Magda Fonseca, que teria ido para os Estados Unidos fazer um curso de inglês. O Brasil tinha naquela época uma cultura muito conservadora, agravada pela repressão militar ora instalada. A Igreja Católica condenou a letra da canção. Hoje, por motivos religiosos, o próprio Roberto Carlos se recusa a cantá-la, porque se nega a pronunciar a palavra “inferno”. Mas funcionou também como um grito de rebeldia, de uma juventude que desejava liberdade, queria romper barreiras, quebras paradigmas, subverter a ordem. O refrão ecoou como um grito.
“De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar/Se você não vem e eu estou a lhe esperar/Só tenho você, no meu pensamento,/E a sua ausência, é todo meu tormento” Roberto expressava todo um sentimento de tristeza causado pela saudade da namorada. Para ele nada havia que pudesse considerar importante na sua vida. Nem a natureza, nem o brilho do sol fazendo surgir cada manhã e indicando que a rotina cotidiana abria novos horizontes. Chorava a ausência da mulher que amava, vivendo em constante espera da sua volta. Sua imagem dominava seu pensamento e a sua razão de viver. Experimentava uma dolorosa sensação de tormento.
“Quero que você, me aqueça nesse inverno,/E que tudo mais vá pro inferno”. Nessa estrofe o motivo de tanta reação contrária dos que viam nela uma mensagem não condizente com a formação religiosa de nosso povo. No entanto, o que ele queria dizer era que precisava que sua amada estivesse lhe aquecendo no inverno, e que qualquer outra alternativa que lhe fosse oferecida em substituição ao seu desejo, fosse para o inferno. Uma radical maneira de manifestar a exclusiva e egoísta vontade que tomava conta do seu ser. O refrão “quero que vá tudo pro inferno”, mesmo sem que essa fosse a intenção de Roberto, dava voz àquela geração para proclamar sua insatisfação com o golpe na democracia a que fomos submetidos.
“De que vale a minha boa vida de playboy/Se entro no meu carro e a solidão me dói/Onde quer que eu ande, tudo é tão triste/Não me interessa o que de mais existe/Quero que você, me aqueça nesse inverno,/E que tudo o mais vá pro inferno”. Nada do que fizesse lhe trazia a alegria de viver. A sua vida de jovem rico já alcançando a fama, usufruindo todas as maravilhas que a riqueza pudesse oferecer, não lhe encantava porque ela não estava em sua companhia. A solidão era uma tortura. E volta a afirmar que só quer tê-la aquecendo nesse inverno e o resto que “vá para o inferno”.
“Não suporto mais, você longe de mim,/Quero até morrer, do que viver assim./Só quero que você, me aqueça nesse inverno,/E que tudo o mais vá pro inferno”. A distância física lhe causando uma dor lancinante, provocando feridas no coração que fazem até ter vontade de morrer. A ansiedade de poder senti-la de novo em seus braços, corpos se aquecendo no frio do inverno. Pensava consigo mesmo, se isso não era possível, “que se danasse o mundo”, outra versão para a frase “quero que vá tudo pro inferno”.
Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”

