Circulou pela internet uma falsa versão da origem dessa música de Djavan, gravada em 1976. É de fato uma história triste, mas não tem nada a ver com a vida pessoal do compositor. Ele nunca foi casado com alguém de nome Maria, nem teria tido uma filha com nome de Margarida.
“Valei-me, Deus!/É o fim do nosso amor/Perdoa, por favor,/Eu sei que o erro aconteceu/Mas não sei o que fez/Tudo mudar de vez”. O personagem, o “eu lírico”, lastima o amor que se findou por um erro que cometeu. Sabe que ela se afastou dele por causa desse erro que, ele próprio, não consegue identificar qual foi. No entanto, pede perdão na tentativa de fazer com que tudo volte a ser como antes.
“Onde foi que errei?/Eu só sei que amei,/Que amei, que amei, que amei”. Vive a aflição de não saber exatamente o que teria feito para motivar o fim do romance. Apenas uma certeza: ele a amou perdidamente. E esse amor, de tão intenso, não permitiu que ele enxergasse o desacerto que possa ter cometido. Como se sabe, a paixão cega e faz com que, às vezes, nos tornemos egoístas, a ponto de não percebermos o que pode magoar a pessoa amada, enquanto estamos felizes.
“Será talvez,/Que minha ilusão/Foi dar meu coração /Com toda força/Pra essa moça/Me fazer feliz”. Começa a questionar se essa entrega total a esse amor não passou de um sonho, uma fantasia. A ideia que “essa moça possa me fazer feliz”, era tudo o que alimentava a construção desse sentimento. Teria cometido um equívoco nesse pensar?
“E o destino não quis/Me ver como raiz /De uma flor-de-lis/E foi assim que eu vi/Nosso amor na poeira/Poeira/Morto na beleza fria de Maria”. Procura impor ao destino a causa da separação, como se quisesse afirmar que “tinha de ser assim”, lamentavelmente. A “flor-de-lis” representa a paz e a pureza e o compositor em busca de sua imagem, conclui que o destino não lhe reservara a ventura de ser “a raiz”, a sustentação desse encontro entre duas pessoas que em algum momento se sentiram atraídas. Desconsolado, ver esse amor idealizado virar pó, desaparecer, sumir, encerrar-se. Não encontra reciprocidade de desejos na “beleza de Maria”, que agora se mostra fria, sem emoções.
“E o meu jardim da vida/Ressecou, morreu/Do pé que brotou Maria/Nem Margarida nasceu”. O “jardim”, representando a vida, demonstra que ao “ressecar”, “morrer”, torna-se um campo infértil, ali não há capacidade de florescer mais nada. “Do pé que brotou Maria, nem Margarida nasceu”- a “flor-de-lis” morta gerou um desalento na sua vida sentimental que não encontra mais entusiasmo para ir em busca de outro amor.
• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.