Novembro/1968: A campanha pelo voto nulo

 

Com a aproximação das eleições municipais programadas para o dia quinze de novembro, as lideranças estudantis de todo o país, por orientação do presidente da Comissão Executiva da extinta UNE, Paulo Tarso, deflagraram uma campanha de convencimento da população para exercerem o voto nulo. Segundo ele, o pleito só serviria para desviar a atenção do povo  dos problemas nacionais.

Na Paraiba a campanha foi assumida pela UPES – UNião Pessoense dos Estudantes Secundaristas e o Grêmio Daura Santiago Rangel. No Liceu vários cartazes foram distribuidos pelos corredores e salas de aula pregando a anulação do voto. O presidente do Grêmio, Eldson Ferreira, declarou à imprensa, quando interpelado para justificar o movimento, que “a campanha pelo voto nulo é válida como protesto diante de eleições que não apresentam realmente qualquer apelo popular, pois a ARENA e o MDB são a mesma coisa. Anular o voto é a unica forma de protesto daqueles que consideram errada a politica do governo e não têm condições de ir às ruas dizer isso de público”.

Segundo as lideranças da campanha de esclarecimento popular nos bairros pobres de João Pessoa, tem sido boa  a receptividade, principalmente quando são chamados a entenderem que “ser eleito é um bom negócio financeiro para os politicos, daí porque se interessam tanto. Continuar votando nesses aproveitadores é a maior besteira que se pode fazer. E isto o povo está entendendo muito bem”.

Os estudantes enxergavam nessa manifestação a forma silenciosa do povo demonstrar seu repúdio à ditadura militar. O governo fazia dessa eleição a tentativa de deixar transparecer para a população brasileira  que estávamos vivendo um momento em que a democracia era respeitada e exercida. Nas capitais os eleitores só podiam eleger os vereadores, porque os prefeitos eram nomeados pelo governador.

A tese dos estudantes, por outro lado, era considerada por muitos como uma atitude anarquista. Ora, se lutávamos tanto pela liberdade de escolhermos nossos representantes, será que anular o voto de pessoas que têm algum nível de consciência política, não seria uma maneira de minimizar a importância das eleições?

O universitário e candidato a vereador em João Pessoa, Ítalo Petrucci, filiado a ARENA, conforme declaração prestada ao jornal O Norte, defendia que “a campanha nacional movida pela UNE, redundará em absoluto fracasso, uma vez que o povo está se agarrando ao resto de eleições que ainda há, estando sedento de votar, cumprindo seu dever democrático. A UNE não atingiu ainda as massas brasileiras, não tendo assim repercussão eleitoral, e  aqui em João Pessoa, por exemplo, as lideranças daquela entidade vão ter uma grande decepção”.

A juventude estudantil brasileira, buscava alcançar uma  quantidade significativa de votos nulos, o que representaria a negação da estrutura politico-partidária vigente. Queriam medir a rejeição popular ao governo autoritário que se instalara no país.

* esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968
* comentários e informações adicionais devem ser encaminhados para o email: iurleitao@hotmail.com

 

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