Ronaldo: a dura hora da partida

{arquivo}Há por parte de quem atesta o fim da relação humana física de um ente familiar muito querido o sentimento de dor ampliada diante da impotência máxima, também humana, para resolver ou impedir o processo de falência dos órgãos.

Este é, como essência, o que permeia a cabeça de cada um familiar do ex-governador Ronaldo Cunha Lima somente confortada pela consciência de que a morte cessou o sofrimento do Poeta.

A partir de agora, além do lamento extensivo ao território paraibano e repercussão fora do Estado, familiares e amigos passam a conviver com o legado do mais importante poeta paraibano com incursão direta na atividade política. Nenhum outro grande nome da poesia da Paraiba enveredou como ele pelos meandros da vida pública com efeito de tamanha dimensão.

O culto à memória de Ronaldo passa a ser de agora em diante uma marca da contemporaneidade em face de tudo o que ele representou enquanto literato e líder político com dimensão popular indiscutível, tanto que logrou êxito em todas as suas pelejas e/ou disputas.

Carismático em nível incomum na forma de se expressar e construir Network – o que os americanos chamam de rede de relacionamentos – Ronaldo só não conseguiu superar na mente os efeitos de dois graves problemas, um político e outro orgânico: o atentado do Gulliver e o AVC, há quem diga influenciado pelo drama de ter atirado no ex-governador Tarcisio Burity.

Este é o fato que selou a vida de Ronaldo: antes e depois do Gulliver.

Ronaldo conquistou mais do que multidões, a simpatia de quem o conhecesse dado o brilho de seduzir e construir amizades como poucos faziam.

Em face de seu brilho poético com dom de oratória incomum, ao longo de muito tempo sonhou – se na Paraíba que ele poderia galgar posições de liderança nacional podendo até ser nome lembrando para a disputa Presidencial como Vice de algum dos candidatos referenciados. Só que este estágio acabou podado pela vida sequente diante das circunstâncias conhecidas.

É doloroso admitir que a nódoa gerada no caminho trilhado não lhe era merecido, enquanto essência humana pela alma e postura de Ronaldo, vitimado pelo infortúnio de um ato que podou tantos sonhos e impediu avanços especiais na sua vida e na da Paraíba, que começou a vê-lo como gestor de resultados quando recompôs o controle da máquina administrativa do Governo do Estado no nível das exigências da época, como também se fora hoje.

Poucos dão importância na atualidade, mas é impossível falar em equilíbrio fiscal na máquina de Governo sem citar os primeiros passos dados por Ronaldo permitindo até a retomada do PARAIBAN, banco que fora fechado na gestão anterior (de Burity) por determinação da política privaticionista do Governo Collor.

Ronaldo conseguiu ver mais longe a perspectiva econômica do estado quando transformou por exemplo Festa pública, no caso os festejos juninos, em incremento financeiro e de visibilidade da Paraíba em todo o Pais como nunca se viu, quando criou a estrutura do Parque do Povo e, paralelamente, o Maior São João do Mundo.

Só que nesta data, em meio ao destino humano, o saldo de tudo se fecha como livro da vida com sua partida neste sábado meio nublado de sol contido.

Como essência, o legado de Ronaldo se fixa agora na história com um dos mais importantes lideres políticos e intelectuais da Paraíba deixando saudades imorredouras no coração de quem lhe conheceu de perto e sabia de seu estrondoso potencial humano.

O fato é que a Paraíba de luto chora a partida de um de seus mais importantes filhos de todos os tempos e que não merecia, repito, ter sofrido o que sofreu. Como homem bom, fica o exemplo do que fez de melhor enquanto pode.
Coisas da vida? Destino? Só Deus pode nos responder.

Descanse em paz digno Poeta!
 

Versos Íntimos

De Augusto dos Anjos, a referência e primazia poética de Ronaldo


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

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