Outubro/1968: As explicações do Governador

 

 

No dia em que João Pessoa viveu novos momentos de conflitos entre estudantes e polícia, o governador João Agripino em pronunciamento as dezoito e trinta horas, pela Rádio Tabajara e Rádio Arapuan e  retransmitido pelas emissoras de Campina Grande e de outras cidades do interior do Estado, procurou justificar as decisões de governo no episódio.

Transcrevo alguns trechos da sua fala :
“Não há tarefa mais díficil e inglória do que governar na época em que vivemos.
A revolução de março extinguiu privilégios e contrariou  muitos que eram favorecidos. E estes não se conformam e não param de agir.
Os politicos partidários se movimentam. Em cada Estado procuram tirar proveito desta situação. Intrometem-se na luta para incompatibilizar o governo e ter possibilidade de ganhar eleições.
Anunciou-se uma passeata de estudantes, sacerdotes e mães de familia em João Pessoa para o dia de ontem. Pedi ao Secretário de Segurança que procurasse o arcebispo Dom José Maria Pires, e indagasse se realmente a passeata proclamada tinha a sua responsabilidade ou a responsabilidade da Igreja, porque se tivesse o governo estava pronto a permiti-la. Mas, do entendimento entre o secretário e o Padre Abath, que respondia pela Arquidiocese, resultou a informação de que a Igreja não estava promovendo a passeata. Apenas alguns padres haviam emprestado sua solidariedade a ela.
Nunca nenhuma lei no Brasil permitiu que, quem quer que fosse, realizasse concentração em praça pública sem o consentimento da polícia. Pretender fazer passeata sem requerer à polícia é infringir a lei.
Em face de não haver a a Ingreja, e particularmente a Arquidiocese, assumido a responsabilidade da passeata, decidiu o governo, em entendimento com o Grupamento de Engenharia, colocar policiais na cidade para impedir que a manifestação fosse feita. Ela não fora requerida, ela não fora comunicada á polícia.
O resultado é que tudo corria normalmente, até que alguns universitários, sob o comando do professor universitário Otacilio de Queiroz, entenderam de fazer uma passeata numa das transversais da Duque de Caxias, numa afronta à polícia ali postada. Houve incidentes resultantes dessa conduta e o professor Otacilio de Queiroz recebeu ferimentos também e alguns policiais foram feridos a pedradas. Ninguém foi ferido a bala.
Falo com a autoridade de quem tem dispensado aos estudantes todo apoio às suas justas reivindicações. Falo com a autoridade de quem tem envidado os maiores esforços para resolver os problemas do ensino afetos ao governo estadual.
Ainda agora, quando estudantes da Paraiba foram presos em São Paulo, recebí apelo em praça pública, em Campina Grande, para que interferisse pela libertação deles. Esse apelo foi feito pelos estudantes Antônio Augusto Arroxelas e Simâo Almeida. Deslocando-me ao Rio de Janeiro intercedí por eles. Dialoguei com o Governador, o Chefe da Casa Civil e o Secretário de Segurança, de São Paulo, e obtive deles, inicialmente, que os estudantes fossem entregues á autoridade do Governador, para que aqui nós os puséssemos em liberdade. Mas a imprensa despertou os estudantes para o fato de que eles não viriam em liberdade, mas sim presos para aqui serem entregues ao DOPS. Já havia eu chamado o Secretário de Segurança para receber os estudantes em São Paulo, entretanto, em face do pronunciamento da imprensa paraibana, voltei a me comunicar com o governador de São Paulo e obtive dele que libertasse os estudantes, ali mesmo em São Paulo, sob a minha garantia e responsabilidade. Entendo que cumprí o meu dever. Não pedí gratidão, nem reconhecimento. Alguns deles procuraram o Escritório da Paraíba para pedir passagem de volta. Recordo-me dos nomes de José Ferreira e Heloisio Jerônimo. Mandei fornecer-lhes passagem, até porque já havia entrado em entendimentos com a Varig a fim de fretar um avião para trazer todos os estudantes. E antes havia autorizado o governo de São Paulo a fretar ônibus para traze-los com o Secretário de Segurança. Pouco importa que pensem ou propalem que foi a reação da família paulista que conseguiu sua libertação.
Não sei, paraibanos, quem tem sido mais amigo dos estudantes. Se eu, que me conduzo assim, indiferente às críticas e às injustiças que me fazem, ou aqueles que açulam os estudantes à desordem, à violência e a todos os riscos. Será que os estudantes pensam que, se porventura conseguissem derrubar o governo, alguns deles chegariam ao poder?
A tarefa de governo é profundamente complexa e difícil. Dou apoio a todos os pleitos justos, tenho apoiado todos os movimentos no sentido de modificar a legislação imperfeita, arcaica ou superada. Mas também como governador, tenho o dever de assegurar a liberdade de todos, a liberdade dos que querem comprar, a liberdade dos que querem se locomover na cidade sem riscos, a liberdade dos que querem transitar com seus veículos sem atropelos. Todos esses são direitos que o governante tem de assegurar, e eles todos resumem numa só coisa: ordem pública.
Por isso, as passeatas com insultos, as passeatas que não têm como objetivo fazer reivindicações justas, mas apenas, provocar as autoridades, humilhar as Forças Armadas, depredar, mostrar enfim, que o país não tem governo, não serão admitidas. Baderna não! Enquanto governar a Paraíba não permitiremos baderna. Respeitaremos a ordem pública, garantiremos os direitos de todos e continuaremos a apoiar as causas justas de todas as classes, especialmente dos estudantes.
Não sobreviveremos sem ordem, pois sem a ordem não haverá regime democrático, caminharemos para a ditadura”.

* esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968
* comentários e informações adicionais devem ser encaminhados para o email: iurleitao@hotmail. com

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