Após sua primeira passagem pelo Teatro Santa Roza em abril, o grupo Ser Tão Teatro retornou aos palcos da centenária casa com o mesmo lembrete: Da última vez que o mundo acabou, começou assim. Partindo da premissa e do fato de que o mundo como o conhecemos colapsou, um grupo de artistas-cientistas se reúne com uma missão urgente: criar um novo mundo possível.
Por pouco mais de uma hora, o elenco dissílabo Polly, Rafa, Paulo e Cely navegou entre as dores e as delícias dos seus mundos e do mundo de todo mundo. No interregno entre dois carnavais, dúvidas foram enfileiradas à bilionária multidão de seres humanos que haverá de ser dizimada – ao menos individualmente, uma hora.
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Com um pé fincado na escola do Teatro do Oprimido, o espetáculo dialogou, sussurrou e gritou filosofias e obviedades que percorrem o cotidiano. “O coletivo tem essa marca na sua trajetória ao longo de todos os espetáculos, de ter esse jogo com a plateia muito forte. A obra só se completa mesmo quando encontra com o público”, adiantou Paulo.
E, ao público, fica a missão de acreditar junto aos artistas-cientistas que reside em Stuart a salvação da humanidade. Difícil acreditar que caberá a quem recebe tanto desprezo dos homens o nosso fiapo de esperança. Mas é na incerteza que também se pede um pouco de crença. “O Stuart representa o desejo inerente de nos agarramos à esperança nas coisas pequenas, no improvável mesmo”, confidenciou Polly.
Essa provocação ganha contornos práticos e interativos no palco. Longe de ser um manifesto passivo, a montagem exige a presença viva de quem está na plateia para desenhar o amanhã. Do básico — como sol e água — a desejos inusitados arrancados do público no calor do improviso, como um “mundo sem ressaca” ou a “escala de trabalho 4×3”, a cena se torna um laboratório social.
Para Cely, o espetáculo funciona como um exercício coletivo de resistência afetiva. “A gente exercita a nossa capacidade de esperançar. E o papel da arte passa por esse lugar de ter fé que temos a capacidade de mudar as coisas, de apontar para o utópico e o inimaginável que só a arte permite”, reflete a atriz. Em tempos de telas e distâncias, a comunhão física do teatro se impõe: “Estarmos todos no mesmo espaço e tempo, partilhando de uma experiência coletiva… o potencial do teatro nesse sentido é gigantesco”.
Não há como haver esperança resguardando o sorriso e, por artifício do humor, a obra consegue transitar dos abusos, dos excessos e das quedas à maresia, à maternidade e ao amor — esse chip implantado naquele órgão que convencionamos apontar quando a sua música ‘tum-tum’ acelera o ritmo.
Um sentimento perfeito, num mundo perfeito, habitado por seres perfeitamente imperfeitos. Uma equação que parece ter sido pensada para a impossibilidade e, se bem refletida, consegue ser lida pelo que é: um lembrete. Lembrete de que ainda dá tempo de optar pela comunhão e fazer da vida um Carnaval o ano inteiro.
Sessão extra
Além das duas datas, a obra se apresentará em sessão extra na próxima sexta-feira (10) também no Teatro Santa Roza, em João Pessoa. Os ingressos custam a partir de R$ 30 e podem ser adquiridos no Sympla do coletivo.
Elenco
Cely Farias; Paulo Philippe; Polly Barros; Rafa Guedes

