Setembro/1968: O boicote ao desfile do dia sete

 

O boicote ao desfile de “sete de setembro” era defendido por lideranças estudantis em todo o país. Em João Pessoa os grêmios Daura Santiago Rangel, do Liceu, e Castro Alves, do Colégio Estadual do Róger, nos primeiros dias de setembro dedicaram suas atividades ao convencimento dos alunos daqueles educandários a não participarem da marcha comemorativa do dia da independência. A negativa de se incorporarem a um evento organizado pelos militares seria a melhor manifestação de amor a pátria. Acompanhando o pensamento do deputado Márcio Moreira Alves, não viam sentido se marcarem presença  num evento organizado por aqueles que os espancavam e os metralhavam nas ruas quando exerciam o direito da livre manifestação de suas insatisfações e de suas reivindicações.
 

Por essa razão os líderes do movimento foram chamados a depor na Polícia Federal e posteriormente levados ao Grupamento de Engenharia. No quartel do exército os estudantes Antônio Soares Filho, Marcus Paiva e Severino Gomes foram ameaçados e humilhados pelo oficial responsável pelo interrogatório. Circulou a informação de que um deles teria sido esmurrado por um sargento.
 

Preocupados com a repercussão da notícia de que os estudantes teriam sido agredidos no Grupamento de Engenharia, os militares, através do Serviço de Relações Públicas da Guarnição Federal de João Pessoa, distribuiu com a imprensa a seguinte nota oficial:
“Face as matérias veiculadas na imprensa de que estudantes secundaristas teriam sido espancados no quartel do I Grupamento de Engenharia, vem o comandante da Guarnição Federal de João Pessoa tornar púbico:
I. Que tais notícias são absolutamente inverídicas e carecem totalmente de fundamento, tudo indicando que foram propaladas visando indispor a mocidade estudantil de João Pessoa com o exército;
II. Que alguns estudantes foram de fato convidados a comparecer ao quartel do I Grupamento de Engenharia, onde foram entrevistados com vistas ao esclarecimento sobre distribuição de panfletos de natureza subversiva incitando contra as Forças Armadas e as instituições do país;
III. Que nenhum dos estudantes interrogados foi preso ou interrogado.”
 

Os estudantes, no entanto, não se intimidaram com as ameaças. No Estadual do Róger os alunos suspenderam as aulas, recusaram participar do ensaio programado, e vaiaram a banda da Polícia Militar que se encontrava no local.
 

Na véspera do desfile os alunos do Liceu abandonaram as salas de aula, atendendo apelo dos dirigentes do grêmio Daura Santiago Rangel, e se concentraram nas escadarias do colégio, onde realizaram um comício relâmpago, convidando os colegas a não participarem do ensaio que estava se iniciando naquele momento na avenida Getúlio Vargas. Vários estudantes saíram dos pelotões formados para o ensaio e se incorporaram ao movimento de protesto.
 

A iniciativa das lideranças estudantis obteve o êxito desejado. Foi muito grande a ausência nas participações do Liceu e Estadual do Róger por ocasião do desfile no dia sete de setembro.
 

No próximo texto tratarei dos acontecimentos seguintes ao desfile, quando surgiam ameaças de punição aosfaltosos por parte dos diretores dos colégios e da secretaria de educação do estado.

• Esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968
• Comentários e informações adicionais devem ser encaminhados para o email: iurleitao@hotmail.com
 

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