Após os conflitos políticos gerados pela intervenção no sindicato dos trabalhadores rurais de Catolé do Rocha, onde o Frei Marcelino de Santana foi o principal líder de contestação à medida, aquela cidade sertaneja reviveu momentos de agitação com manifestações em praça pública nos primeiros dias do mês de agosto.
Tudo começou com uma vistoria feita por policiais no colégio Dom Vital, de propriedade do Frei Marcelino, em razão de uma denúncia de que o vigia estaria dando tiros no recinto da escola. Lá apreenderam a arma de um alemão quer trabalhava como segurança. O ato foi considerado ilegal por Frei Marcelino que decidiu tomar satisfações na delegacia da cidade.
O delegado de Catolé do Rocha, tenente Nilton Araújo, entendeu como desrespeitosa a atitude do frade e ameaçou prende-lo. Foi o bastante para gerar protestos generalizados de estudantes, comerciantes, bancários e políticos da região. Os religiosos Frei Miguel e Sebastião do Bom Conselho, vigário da paróquia, em solidariedade ao Frei Marcelino, decidiram abandonar a cidade, alegando falta de segurança.
A população se organizou e em passeata protestou e apelou para que os religiosos revissem suas decisões de sair da cidade.
Frei Marcelino comunicou o acontecimento, por telegrama ao deputado Sebastião Calixto, que, da tribuna, pronunciou-se a respeito: “Toda a Paraíba conhece a obra social do Frei Marcelino e por isso ele vem sofrendo pressões da polícia de Catolé do Rocha, a exemplo do que aconteceu no fim de semana quando o colégio que dirige foi violentamente assaltado por contingente policial com a finalidade de desarmar o vigia que se preparava para iniciar a sua tarefa de guarnição do educandário. Os estudantes e populares daquela cidade, em sinal de protesto contra a atitude da polícia, saíram em passeata pelas ruas”.
O deputado Otávio Maia rebateu a acusação: “Frei Marcelino foi ao comissariado exigir a devolução da arma, o que lhe foi negado. Então, dirigiu-se ao juiz, que ratificou a decisão do comissário. Inconformado o padre reuniu os estudantes, fechou o colégio e organizou uma passeata de protesto. Já para evitar distúrbios, o comissário não permitiu a interferência da polícia, apesar da agressividade dos oradores”.
Prestando declarações à imprensa de João Pessoa, Frei Marcelino afirmou: “Este não é um fato isolado, mas a continuação de uma série de provocações iniciadas com a invasão do sindicato dos trabalhadores rurais. Nós, religiosos do Colégio Dom Vital, temos recebido telefonemas de desrespeito continuamente. Quando resolvemos abandonar a cidade, foi justamente pela falta de garantias”.
O juiz da comarca, Dr. Antônio Elias de Queiroga, decidiu notificar o governador João Agripino sobre os acontecimentos, enviando-lhe o seguinte telegrama:
“Distúrbios nas ruas de Catolé do Rocha irromperam ontem à noite prolongando-se até a madrugada de hoje, com passeata e comícios promovidos pelos estudantes locais e frades, tendo à frente o Frei Marcelino. O fato foi motivado em virtude da ação justa e legal do tenente Nilton que prendeu um rifle de um alemão, no momento em que o mesmo fazia disparos com a arma dentro dos muros do colégio de Frei Marcelino, no começo da noite de ontem, e que estava intranqüilizando famílias nas ruas adjacentes ao colégio.
Como Frei Marcelino entendeu que a polícia havia invadido seu colégio, o que não ocorreu, frades decidiram fechar a igreja e os colégios e rumaram a Cajazeiras. Essa decisão veio provocar os distúrbios já citados, os quais decorreram sem maiores incidentes, pois estou convencido de que o Frei Marcelino deseja se tornar vítima de alguma coisa e criar um ambiente de intranqüilidade e insegurança nesta cidade.
Determinei que o comissário de polícia local tivesse toda a calma possível, respeitando, inclusive, a passeata, que se encontra proibida em todo o território nacional como é do conhecimento de Vossa Excelência. A calma voltou a reinar, tendo os frades desistido da atitude retirando-se”.
Frei Marcelino, portanto, revelou-se em 1968 o principal agitador político do sertão, sempre liderando as manifestações públicas de protesto e protagonizando acontecimentos que repercutiam não só na cidade em que morava e atuava, mas em todo o Estado.
• esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968
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