A intervenção no Sindicato Rural de Catolé do Rocha continuava repercutindo intensamente.
Em reunião realizada na cidade de Solânea, no dia vinte e seis de maio, representantes de todos os sindicatos rurais da Paraíba protestaram contra a decisão da Delegacia do Ministério do Trabalho, divulgando um manifesto em que classificavam a intervenção como “um ato de politicagem declarada para promover as oligarquias decadentes de Catolé do Rocha”.
Os protestos também partiram do movimento estudantil daquela cidade, onde cerca de sessenta universitários que freqüentavam cursos em Recife também tornaram pública uma nota afirmando: “ por defender o trabalhador do campo, por gritar contra uma intervenção aviltante que vem neutralizar o direito que tem de escolher seus dirigentes, o Frei Marcelino é caluniado, acusado de fazer política. Nós, estudantes, apoiamos o sindicato rural, apoiamos o Frei Marcelino, arquiteto de nossa cidade. Abaixo as oligarquias políticas que tentam a dissolução do sindicato. Para a frente e para o alto”.
O senador Pereira Diniz ocupou a tribuna da mais alta casa legislativa do país denunciando a intervenção e a nomeação de um grande proprietário rural para presidir a Junta Governativa. No seu discurso dirigiu requerimento ao Ministério do Trabalho buscando informações sobre os verdadeiros motivos que determinaram a intervenção do governo no sindicato rural de Catolé do Rocha.
O presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG, sr. José Francisco, após visita feita à Paraíba para inteirar-se das denúncias a respeito, deu declarações à imprensa manifestando a “solidariedade aos trabalhadores rurais de Catolé do Rocha” e declarando que “não medirei esforços para por fim à intervenção pelos meios legais e devolver ao sindicato o direito de ser dirigido pelos seus verdadeiros líderes”.
A informação de que o antigo presidente havia renunciado por pressões do grupo que assumiu em seu lugar, foi desmentida por um documento publicamente dado a conhecer: Eu, Victor Ferreira, brasileiro, casado, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Catolé do Rocha, declaro, diante de duas testemunhas presentes, de minha livre e espontânea vontade, livre de qualquer coação, que usando de um direito que me assiste renunciei definitivamente à presidência do referido sindicato, continuando, no entanto, como sócio da referida entidade”.
O Frei Marcelino, líder do movimento de contestação ao ato de intervenção no sindicato, informou que “terá imenso prazer em comparecer ao Poder Legislativo para informar a todos os paraibanos e seus representantes legítimos a história suja que existe nos bastidores dessa trama. Meu trabalho em Catolé do Rocha é o resultado de um imperativo da consciência, ao qual não posso me furtar. O que existe, em suma, é o desespero de oligarcas daquela cidade que não querem permitir a promoção dos jovens e do povo. Não admitem nem que os tempos mudam”.
O delegado regional do trabalho, sr. Francisco Teotônio, divulgou nota oficial afirmando: “em nota publicada no jornal O Norte, a Federação dos Trabalhadores da Lavoura do Estado da Paraíba, chama de imoral a medida saneadora no sindicato dos trabalhadores rurais de Catolé do Rocha, pecando pelo fato de que quem a escreveu não assinou, e quem a assinou não tem a competência para escrevê-la.
A campanha publicitária contra o titular da Delegacia Regional do Trabalho, tem o único objetivo de empanar os verdadeiros fatos, a fim de ser apresentado o seu promotor como vítima, aos olhos da coletividade, adiantando que os que pensam fabricar mártires estão enganados, pois a época atual não mais comporta o culto à personalidade.
O pior nisto tudo é que estão gastando o dinheiro que deveria ser empregado em benefício dos trabalhadores rurais, com propagandas difamatórias a uma medida legal, emanada da alta direção do Ministério do Trabalho e da Previdência Social.
O fato do MDB – Movimento Democrático Brasileiro estar se preocupando tanto com o caso, se conclui que não tendo aquele partido elementos para se fazer oposição ao governo, se apega a motivos de somenos importância. Pois medidas desta ordem acontecem desde a promulgação da CLT”.
Em resposta à nota do delegado regional do trabalho, o Frei Marcelino disse que: “a intervenção no sindicato rural de Catolé do Rocha e a portaria que nomeou um proprietário rural para dirigir a entidade de classe, foram medidas tomadas pelo próprio delegado do trabalho na Paraíba, e não pelo Ministro Jarbas Passarinho, ao contrário do que se quis insinuar desde os primeiros instantes. Na ata da posse da junta interventora consta, explicitamente, que o Sr. Juraci Borges, proprietário rural feito interventor, bem como o sr. Urias Messias, enviado pelo delegado do trabalho a Catolé do Rocha, foram nomeados pelo próprio srr. Francisco Teotônio. Mais: a ata da posse demonstra também que os políticos da região influíram decisivamente na medida de intervenção, já que os nomes de vários deles constam no documento que deu posse à junta interventora”.
O bispo de Crateús, Dom Antônio Fragoso, enviou carta aos trabalhadores rurais de Catolé do Rocha, nos seguintes termos:
“Não desanimem porque a prepotência tem os pés de barro e a causa da justiça vencerá. Nem governador, nem polícia, nem patrão, têm direito de intervir na vida sindical. É necessário lutar pela autonomia sindical. Os sindicatos devem unir-se, solidariamente, para protestar com veemência na hora do terror e da injustiça.
• esse texto faz parte da série COMO A PARAÍBA VIVEU O ANO DE 1968
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