Abril/1968: A missa de sétimo dia

 

A missa de sétimo dia em sufrágio da alma do estudante Édson Luís, vitimado pela barbárie da policia carioca, como já era esperado, foi motivo de vários conflitos entre os estudantes e as forças repressivas do governo. O Rio de Janeiro foi palco de vários e violentos incidentes durante todo o dia quatro de abril. Duas celebrações litúrgicas foram realizadas. A primeira pela manhã na Igreja da Candelária. As pessoas que haviam comparecido à cerimônia foram atacadas e espancadas pelo Cavalaria da Policia Militar ao saírem, registrando-se vários feridos. As dezoito horas, na segunda missa, celebrada pelo vigário-geral do Rio de Janeiro, Dom Castro Pinto, que havia sido interpelado na véspera pelo general Sizeno Sarmento, na tentativa de evitar que aquele sacerdote realizasse a cerimônia, o ambiente era muito mais tenso, por conseqüência dos acontecimentos traumáticos da manhã. O templo católico recebia um público de aproximadamente seiscentas pessoas, não só de estudantes, mas também de intelectuais e lideranças políticas. Fora da Igreja estava montado um aparato policial que se assemelhava mais à preparação para um combate de guerra. Dois mil soldados cercavam o local em que a missa se realizava. Quatro aviões da FAB sobrevoavam o centro da cidade atemorizando a população.

Ao término da celebração, informados da posição policial fora do templo religioso, os padres deram a ordem: “Ninguém sai. Deixem que os padres saiam na frente. Vamos todos sair em ordem: primeiro os padres, em seguida os que estão de pé e depois os que estão sentados”. E assim enfrentaram os militares que se postavam em frente da Igreja. A coragem dos jovens sacerdotes inibiu as forças militares, temerosas em repetir o conflito da manhã, e, de certa forma, pelo receio do governo em impor massacre a uma multidão comandada por representantes da Igreja Católica. Dispersada a tropa os manifestantes puderam ir para suas casas com tranqüilidade.

Na Paraíba a partir das nove horas da manhã os estudantes e populares se dirigiam para a Catedral, hoje Basílica de Nossa Senhora das Neves, na Avenida General Osório, e no caminho testemunhavam a disposição do governo em reagir contra qualquer manifestação após a missa, considerando a proibição que o Secretário de Segurança havia divulgado no início do dia. Policiais, fortemente armados, se colocavam em pontos estratégicos do centro da cidade, principalmente nas proximidades da Catedral.

A missa foi iniciada pontualmente às dez horas pelo padre Juarez Benício, cujo sermão proferido durou aproximadamente quarenta e cinco minutos no elogio fúnebre do estudante Édson Luis, por quem se celebrava aquela cerimônia. A Igreja estava totalmente lotada. O silêncio respeitoso que ali se verificava durante todo o ato litúrgico e o semblante, embora tenso, mas calmo, de todos os participantes, não diriam que estariam muito próximos de enfrentarem a mais violenta batalha de ruas já verificada na história da Paraíba.

No próximo texto farei relato minucioso desse embate travado entre os estudantes e a polícia militar do nosso Estado.

• esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968
• comentários e informações adicionais devem ser encaminhados para o email: iurleitao@hotmail.com

 

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