As manifestações estudantis explodiam no mundo inteiro. Tudo era motivo para se organizar um ato público de protesto ou de reivindicação. Em 28 de março, final de tarde, alguns estudantes planejavam uma passeata programada para o dia seguinte, exigindo melhorias nas condições de higiene do restaurante Calabouço, localizado no Aterro do Flamengo, quando policiais invadiram o local usando da violência. Os estudantes secundaristas que diariamente jantavam ali foram surpreendidos com o ataque e tentaram se defender reagindo com o arremesso de pedradas. Foi o suficiente para que fossem disparados vários tiros contra eles.
Entre os estudantes presentes estava o jovem de 16 anos, Édson Luis de Lima Souto, atingido por uma bala no peito que lhe causou morte imediata. Viria a ser o fato determinante de uma grave crise que viveria o país. O corpo do estudante morto foi levado nos ombros pelos colegas até a Assembléia Legislativa onde passaria toda a noite sendo velado por milhares de pessoas, num clima de muita tensão e de crescente revolta. Os teatros cariocas, ao tomarem conhecimento do assassinato, suspenderam seus espetáculos e convocaram os expectadores a participarem do velório.
O enterro do estudante foi acompanhado por mais de cinqüenta mil pessoas, cujo cortejo percorreu várias ruas do Rio de Janeiro, recebendo a solidariedade da população por onde passava.
Iniciava-se naquela oportunidade, em todo o Brasil, um período de grande agitação que perdurou por todo o ano de 1968.
Em João Pessoa estudantes do Liceu realizaram comício relâmpago em frente ao Liceu, na avenida Getúlio Vargas, no momento em que Édson Luis era sepultado no Rio de Janeiro. Discursos inflamados das lideranças estudantis paraibanas defendiam a decretação de uma greve geral, em solidariedade ao movimento paredista que sinalizava acontecer em todo o Brasil. A manifestação aconteceu de forma improvisada pelos alunos do curso noturno do Liceu mas logo recebeu a adesão dos estudantes de outros educandários e dos que freqüentavam as escolas no período diurno.
Ao final do comício três decisões haviam sido tomadas pelos estudantes: 1) promover permanente debate durante toda a semana vindoura (o ato público acontecia numa noite de sexta feira) sobre o movimento estudantil na Paraíba e no Brasil, com a convocação de secundaristas e universitários; 2) realizar uma cota para aquisição de faixas de luto que seriam colocadas nos principais estabelecimentos de ensino da capital; 3) decretar greve geral de todos os estudantes do Liceu, buscando convencer toda a classe estudantil secundária e universitária a se incorporar à paralisação das atividades escolares.
A vida brasileira foi incendiada por sucessivos acontecimentos que envolviam não só os estudantes, mas também os intelectuais e as organizações sindicais. Na Paraíba, como se pode constatar nos textos que irão se suceder, não foi diferente. Os maniestantes nas ruas e a repressão do governo acontecendo de forma violenta, constituiram-se marcos históricos do enfrentamento à ditadura militar em nosso estado.
• esse texto faz parte da série COMO A PARAÍBA VIVEU O ANO DE 1968
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