O cheiro da linotipo

Seria exagero dizer que ainda sinto nas ventas o cheiro quente das linotipos que produziam o centenário Jornal A União. Mas que a lembrança permanece ativa, não tenham duvidas. As matrizes de chumbo eram devolvidas para nova fundição e reutilização a uma temperatura de 270 graus centígrados, o que concorria para diminuir o tempo de aposentadoria dos operadores daquelas maquinas inventadas na Alemanha por volta de 1890. Uma quentura dessas ninguém esquece.

Diria que ainda ecoam nos meus ouvidos os gritos do gerente Manoel Costeira, no seu estilo estridente de ordenar e a necessidade de se fazer ouvir sobre o barulho das máquinas produzindo matrizes a seis ou oito mil toques por hora. Dessas matrizes, colocadas em um componedor, utensílio onde o tipógrafo organiza a Mao os caracteres que irão formar as linhas de composição, uma copia era tirada para ir à revisão.

Era uma dessas tiras de papel impresso com o produto da montagem do texto, completo ou não, que chegava às minhas mãos para a revisão. Foi com esse emprego, revisor de A União, que consegui fazer as minhas primeiras feiras de adolescente casado, ainda aluno do Liceu e a caminho da Faculdade de Direito.

Antonio Brayner era o Diretor da Imprensa Oficial. O oposto de Costeira, cauteloso no falar e no agir, me concedeu uma coluna onde comecei a dar os primeiros passos no jornalismo. Com correspondentes voluntários em todo o interior, minha coluna abordava assuntos municipais. Foi nessa época que conheci Edvaldo Motta, secretário do prefeito Zé Cavalcanti, de Patos e assíduo missivista com noticias do gestor da terra do sol. O veiculo utilizado era o telegrama: “Zé Cavalcanti tomou o café da manhã com os garis, costume que adotou para o inicio de seu expediente diário”, mandava dizer Edvaldo, vereador e depois deputado estadual e federal, indo mais longe que o seu então chefe.

Do antigo prédio de A União, que cedeu seu terreno para Ernani Satyro construir a Assembleia Legislativa, ficou apenas uma escada em espiral, semelhante àquela que dava acesso às barulhentas oficinas da gráfica. A história da Paraíba, em muitos episódios, está umbilicalmente ligada à história do centenário periódico oficial. Foi através das páginas de A União que João Dantas tomou conhecimento da presença de João Pessoa no Recife e partiu para a sua vingança pessoal contra a campanha de ataques que vinha sofrendo através da imprensa. E que imprensa? Justamente A União.

Alguns Governadores, a exemplo do próprio João Pessoa, costumavam redigir editoriais para o órgão oficial. José Américo, Pedro Gondim e Ernani Satyro foram igualmente assíduos na redação de editoriais. Ernani mantinha uma coluna sob o titulo Sempre aos Domingos.

O folclore político paraibano também envolve o jurássico veículo. Zé Américo, no Piancó, retratou o deputado Antonio Montenegro, seu então adversário: “E mais fiel ao Governo do que o chumbo do Diário Oficial”. Eu mesmo, na minha famosa irreverência já cheguei a proclamar: “é o único jornal independente da Paraíba: é do Governo e não nega”…

Quis o destino que o Governador Ricardo Coutinho me confiasse a missão de conduzir a imprensa oficial. Estarei de volta ao velho jornal, após quarenta anos. Agora, não mais as linotipos do passado, cheiro de chumbo ou temperaturas elevadas. Tudo está climatizado e informatizado. Não existe mais a preocupação dos gráficos com as moléstias provocadas pela atividade insalubre. Agora, todo cuidado é pouco contra a ação dos hackers que tentam invadir suas páginas e sabotar os atos oficiais. São os tempos modernos.

Mais Posts

Tem certeza de que deseja desbloquear esta publicação?
Desbloquear esquerda : 0
Tem certeza de que deseja cancelar a assinatura?
Controle sua privacidade
Nosso site utiliza cookies para melhorar a navegação. Política de PrivacidadeTermos de Uso