Exposição Sargaços, de Rosilda Sá, leva ao Museu de Arte Popular da Paraíba aquilo que o mar devolve à praia

Com curadoria de Amanda Tavares, a mostra reúne nove conjuntos de obras produzidos entre 1992 e 2026 eabre no dia 18 de novembro, às 19h, em Campina Grande, com entrada gratuita

Foto: Kell Barbosa

A artista-pesquisadora paraibana Rosilda Sá abre no dia 18 de novembro, às 19h, no Museu de Arte Popular da Paraíba (MAPP), em Campina Grande, a exposição individual Sargaços, com curadoria de Amanda Tavares. Anoite de abertura terá visita mediada pela própria artista e tradução simultânea para Libras, e a mostra fica em cartaz até 24 de janeiro de 2027, de terça a domingo, das 10h às 19h, com entrada gratuita e classificação livre. O projeto foi selecionado através do Edital nº 013/2026 – Artes Visuais (PNAB Paraíba), e conta com apoio financeiro do Governo do Estado da Paraíba, por meio da Secretaria de Estado da Cultura, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, do Ministério da Cultura.

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O título faz referência às algas que flutuam à deriva e, quando se juntam, formam grandes tramas no oceano, parecidas com bordados. Na obra de Rosilda Sá, essas algas se tornam imagem de memória e também de alerta, porque o que chega à praia guarda os vestígios das transformações que o próprio mar atravessou. Aexposição nasce de dois lugares de origem da artista, a casa da família à beira-mar, no Largo da Gameleira, em Manaíra, João Pessoa, e o próprio mar, e se pergunta o que o oceano nos devolve, entre algas, lembranças e resíduos como o plástico.

Bordados, esculturas têxteis, cerâmicas, fotografias e instalações ocupam a sala circular do museu, popularmente conhecido como Museu dos Três Pandeiros e projetado por Oscar Niemeyer. Em boa parte das obras, o próprio material carrega o seu sentido. Na série Algas – Rhodophytas flutuantes, os bordados com aviamentos são feitos sobre sacos azuis para lixo, de modo que o suporte que evoca as águas é o mesmo que denuncia o descarte inadequado. Em Puffer Fish, onze tapetes de banheiro viram esculturas que lembram obaiacu, peixe que infla o corpo quando se sente ameaçado, enquanto em Castelos de Areia, instalação de piso criada em 2026 e montada especialmente para o MAPP, a terracota divide o espaço com o microplástico (doado pelo Projeto Mares Sem Plástico da UFPB) e o polipropileno triturado.

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A memória familiar atravessa a mostra na mesma trama do alerta ambiental. Em Dinda, Rosilda reúne em uma instalação a caixa de costura, as rendas, a mesinha e o padrão de bordado da avó materna, e em Origem borda quatro fotografias de si mesma, ainda criança, na praia de Manaíra, feitas pelo avô. O percurso inclui também os objetos de cerâmica e metal da série Orgânicos (1992–1997), que na leitura curatorial aparecem como fragmentos que se dissolvem no mar ou emergem dele, à maneira de ruínas contemporâneas, e afotoperformance Solver (2010), inédita, em 22 fotografias, na qual a artista devolve ao mar pequenos objetos modelados em terracota. Completam o conjunto Reflexos #1, da série Espelhos, em que o plástico transparentebordado sobre um espelho bisotado antigo tira dele a capacidade de refletir com nitidez, e a instalação têxtil de parede Sargaços, que dá nome à exposição, na qual aviamentos de costura se transformam em algas. Ao todo, são 34 anos de produção, de Orgânicos a Castelos de Areia, reunidos em uma única mostra.

No texto inédito, intitulado “Sargaços”, escrito para esta itinerância, a curadora Amanda Tavares aproxima o mar de Rosilda Sá daquele do poema “Mar Absoluto”, de Cecília Meireles, um mar ao mesmo tempo concretoe simbólico, que ora se mostra límpido e acolhedor, ora turvo e atravessado por resíduos. E destaca as aproximações e diálogos da arte popular e do fazer artesanal usados pela artista no contexto da arte contemporânea. Na exposição, a matéria orgânica convive com o refugo industrial, e o gesto artesanal com o mecânico. A pesquisa que deu origem à mostra parte ainda do poema “Sargaços”, de Waly Salomão, queentende a criação artística como resistência à passividade e ao conformismo, como quem prefere mergulhar e nadar contra a correnteza até a exaustão a ficar parado vendo os navios passarem. Outra referência é a carta atribuída ao cacique Seattle, da qual a artista destaca o trecho: “Tudo está entrelaçado, o homem não teceu a trama da vida, ele é apenas um fio, tudo que ocorrer à Terra, ocorrerá aos filhos da Terra, contaminem seus leitos e uma noite perecerão em seus próprios dejetos”.

A chegada de Sargaços a Campina Grande, com uma nova expografia e três obras inéditas, amplia o acesso àprodução contemporânea de artes visuais numa cidade que polariza 59 municípios do Agreste e do Cariri e cuja agenda cultural costuma se concentrar no São João e na música. O tema também conversa de perto com o público campinense, já que a degradação ambiental alcança rios, açudes e ecossistemas do interior, e a mostra convida a pensar sobre o consumo de plástico, o descarte de resíduos e a transformação das paisagens naturais. A circulação tem o apoio da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), à qual o MAPP é vinculado, e da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), por meio do projeto institicional Mares Sem Plástico, e do Laboratório de Cerâmica (LABCE), vinculado ao Centro de Comunicação, Turismo e Artes (CCTA).

Ao longo da temporada, a equipe educativa do MAPP realiza visitas mediadas todos os dias, com acolhimentodo público espontâneo e agendamento para escolas e grupos, e a própria artista media visitas nos dias, 22 de novembro (seguida da palestra “Mares sem plástico: ações educacionais para preservação de ambientes marinhos e costeiros”, com a professora Cláudia de Oliveira Cunha, coordenadora do Projeto Mares Sem Plástico/UFPB), também nos dias 12 de dezembro e 9 de janeiro. Neste último dia, após a mediação, Rosilda Sá e Thuânia Carvalho ministram uma oficina de arte voltada para crianças, com o apoio do LABCE/CCTA/UFPB. No dia 22 de janeiro de 2027, às 19h, uma roda de conversa com tradução simultânea para Libras reúne a artista, o diretor do MAPP, professor José Pereira da Silva, e a curadora do museu, Rebeca Sousa. Para ampliar o acesso às obras, a montagem prevê audiodescrição e tradução em Braille dos verbetes e experiência tátil comum Puffer Fish. O Núcleo de Acessibilidade e Inclusão (NAI) da UEPB está apoiando com a tradução simultânea para Libras na abertura e no encerramento da exposição. Antes da montagem da exposição ocorreu no dia 4 de novembro a formação Estratégias de Mediação e Acessibilidade Cultural, com o professor André Aquino, para a equipe do educativo do MAPP.

Sargaços estreou em outubro de 2025 na Galeria de Arte Archidy Picado, da Funesc, em João Pessoa, através de seleção por Edital, depois de Campina Grande segue para Recife, onde ocupa o Museu de Arte Moderna Aluísio Magalhães (MAMAM) entre fevereiro e abril de 2027, esse Projeto de itinerância para a capital Pernambucana, também foi selecionado através de Edital nº 60.008/2025, Funjope/FMC – PNAB. A itinerância chega pouco depois de a artista ter integrado a coletiva nacional “Fullgás – Artes Visuais e Anos 80 no Brasil”, que circulou em 2025 pelos Centros Culturais Banco do Brasil do Rio de Janeiro, de Brasília, de São Paulo e de Belo Horizonte. Doutora em Psicologia Clínica, Rosilda Sá também transita entre arte e psicologia, campo em que publicou o livro Adolescentes mães em instituição: o fazer cerâmico e a criação de si (Editora CRV, 2021).

Sobre Rosilda Sá

Rosilda Sá nasceu em João Pessoa, em 1963. Artista-pesquisadora, é professora do curso de Artes Visuais doCentro de Comunicação, Turismo e Artes da UFPB e coordena o Laboratório de Cerâmica (LABCE/CCTA/UFPB). Integra o comitê de Poéticas Artísticas da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Visuais (ANPAP). Expõe no Brasil desde 1980 e no exterior desde 1991. Realizou várias exposições individuais e participou de coletivas em galerias, museus, salões, além de espaços alternativos. Sua produção tem se destacado por expandir as fronteiras tradicionais da cerâmica, inserindo-a no campo da arte contemporânea por meio de abordagens formais, conceituais e reflexivas.

Além da cerâmica, sua produção abrange instalações, esculturas, desenhos, bordados, fotoperformance e arte postal, e investiga as relações entre ser humano e natureza, vida e morte, memória afetiva e experiência sensorial. As referências fundamentais para a sua poética são os dois lugares de origem, o espaço íntimo da casa da família (dos avós maternos) à beira-mar, no Largo da Gameleira, em Manaíra, João Pessoa, e o espaço público e geográfico da praia e do mar. Durante a pandemia, a artista retomou o bordado e intensificou a produção de arte postal. Também é autora de livro, artigos e vídeos.

Serviço

Exposição: Sargaços, de Rosilda Sá Curadoria: Amanda Tavares
Abertura: 18 de novembro de 2026, das 19h às 21h, com visita mediada pela artista e tradução simultânea para Libras
Visitação: de 19 de novembro de 2026 a 24 de janeiro de 2027, de terça a domingo, das 10h às 19h
Local: Museu de Arte Popular da Paraíba (MAPP)
Endereço: Rua Dr. Severino Cruz, s/n – Centro, Campina Grande – PB
Entrada: gratuita
Classificação: livre

Programação:

Visitas mediadas pela artista: 22 de novembro, 12 de dezembro de 2026 e 9 de janeiro de 2027;
Palestra: 22 de novembro, “Mares sem plástico: ações educacionais para preservação de ambientes marinhos e costeiros”, com Cláudia de Oliveira Cunha;
Oficina de arte para crianças: 9 de janeiro de 2027, com Rosilda Sá e Thuânia Carvalho;
Roda de conversa: 22 de janeiro de 2027, às 19h, com Rosilda Sá, José Pereira da Silva e Rebeca Sousa (tradução simultânea para Libras);
Encerramento: 24 de janeiro de 2027, às 18h
Agendamento de escolas e grupos (consultar a produção e a secretaria do MAPP).

Mais informações: @exposicao.sargacos

Ficha técnica

Curadoria: Amanda Tavares
Coordenação Executiva: Rosilda Sá e Lisianne Saraiva Conexões Criativas Coordenação Local: Rebeca Souza
Expografia: Amanda Tavares, Rosilda Sá e Everton David (Etc. Produção Cultural) Montagem: Tiago Soares, Etc. Produção Cultural e Rosilda Sá
Fotografia: Cacio Murilo, Edson Matos e Natasha Leone Videomaker: Natasha Leone
Design: João Faissal e Tiago Truta
Acessibilidade: Núcleo de Acessibilidade e Inclusão – NAI/UEPB; Herbert Costa do Rego, Jeane Leal e Nayara Viturino dos Santos
Ações Educativas: Prof. André Aquino, Profa. Cláudia Cunha (Mares Sem Plástico/UFPB), Profa. Rosilda Sá (Laboratório de Cerâmica/CCTA/UFPB) e Profa. Thuânia Carvalho

Educativo MAPP (bolsistas): Albieri Félix da Silva, Ana Júlia Diniz Ferreira, Bruna dos Santos Souza, Ellen Ferreira de Oliveira Sousa, Erick Vitor Sales Pinheiro, Gabriella de Morais Torres Irineu, Iêna Verônica Lucena Gomes, Janaína Canuto Campos, Jéssica dos Santos Brito, Júlia Bertino Nóbrega Nascimento, Maria Ilza Francisca da Silva e Maria Letícia Medeiros Duarte

Educativo MAPP (voluntários): Ellen Souza, Gabriella de Morais Torres Irineu, Layla Guedes Andrade e Luanny Christine Farias Nunes

Realização: Secretaria de Estado da Cultura – Governo da Paraíba; Sistema Nacional de Cultura; Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB); Ministério da Cultura – Governo Federal
Produção: LS Conexões Criativas
Apoio: Panificadora Espaço do Pão; Gráfica JB; Etc. Produção Cultural; Iris Galeria Fineart Molduras; Mares Sem Plástico; LABCE – Laboratório de Cerâmica; CCTA – Centro de Comunicação, Turismo e Artes; UFPB – Universidade Federal da Paraíba; NAI – Núcleo de Acessibilidade e Inclusão; UEPB – Universidade Estadual da Paraíba; Museu de Arte Popular da Paraíba

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