Esquecer compromissos, começar várias tarefas sem conseguir terminá-las e agir por impulso. O que parece distração ou inquietação pode esconder sinais do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Embora tenha início na infância, o transtorno pode passar despercebido por anos e só ser identificado na vida adulta, quando as dificuldades se tornam mais evidentes.
Siga o canal do WSCOM no Whatsapp
Entre no nosso grupo e saiba tudo em primeira mão
Durante o Outubro Laranja, campanha de conscientização sobre o TDAH, o professor e psiquiatra Kaike Thiê, da Afya Educação Médica de João Pessoa, explica como reconhecer os sinais e diferenciar o transtorno de distrações comuns.
“Os transtornos psiquiátricos causam sofrimento e causam disfuncionalidade, ou seja, o indivíduo não vai funcionar adequadamente. Uma distração, uma falta de atenção corriqueira que qualquer um pode ter, não há de causar sofrimento expressivo e nem disfuncionalidade”.
Não conseguiu acompanhar tudo hoje?
Receba um resumo das principais notícias do WSCOM diretamente no seu e-mail, todos os dias às 19h.
Desatenção, hiperatividade e impulsividade
O TDAH envolve três componentes principais: desatenção, hiperatividade e impulsividade, que podem se manifestar de formas e intensidades diferentes. A desatenção pode comprometer a organização e a administração do tempo. A hiperatividade está associada à inquietação, enquanto a impulsividade pode dificultar o controle das reações e a avaliação das consequências antes de agir.
Na infância, esses sinais podem prejudicar o aprendizado e a convivência escolar. Na vida adulta, podem afetar a organização da rotina, o cumprimento de prazos e os relacionamentos.
“Uma das características da desatenção é a dificuldade de manter o foco no que está sendo feito. É o caso da criança que olha para o quadro durante a aula, mas parece estar com a atenção em outro lugar quando o professor solicita sua participação. Já a hiperatividade pode se manifestar na dificuldade de permanecer quieto em sala de aula. A impulsividade, por sua vez, aparece em comportamentos como interromper outras pessoas e falar antes que elas concluam o raciocínio”, explica Kaike Thiê.
A presença isolada dessas características não confirma o diagnóstico. A avaliação considera a persistência dos sintomas e os prejuízos causados em diferentes áreas da vida.
Por que o diagnóstico pode acontecer na idade adulta?
Embora comece na infância, o TDAH pode permanecer sem diagnóstico por anos. Algumas pessoas crescem sendo consideradas desatentas ou desorganizadas, sem que suas dificuldades sejam investigadas. Na vida adulta, as exigências do trabalho, dos estudos e dos relacionamentos podem tornar esses obstáculos mais evidentes.
“Quando recebo adultos no consultório com suspeita de TDAH, a primeira coisa a fazer não é olhar somente para o presente, mas investigar a infância. Muitas vezes, são pessoas que recebiam apelidos, pareciam estar sempre distraídas, eram consideradas desajeitadas ou derrubavam objetos com frequência. Características vistas como habituais podem ser sinais de que é importante procurar ajuda”, explica Kaike Thiê.
As exigências da vida adulta podem tornar mais evidentes dificuldades que antes eram compensadas pelo apoio familiar e por uma rotina estruturada. Segundo Kaike Thiê, a menor presença dos pais no cotidiano e o aumento das responsabilidades ajudam a explicar por que os impactos do TDAH se tornam mais perceptíveis nessa fase.
Os impactos não se limitam ao desempenho escolar ou profissional. Dificuldades para lidar com frustrações, administrar emoções e organizar compromissos podem afetar a autoestima e os relacionamentos. Nas mulheres, as expectativas sociais relacionadas ao comportamento feminino também podem contribuir para que alguns sintomas sejam ocultados, dificultando o reconhecimento do transtorno.
Redes sociais e os riscos do autodiagnóstico
A circulação de conteúdos sobre saúde mental nas redes sociais ampliou o acesso a informações sobre o TDAH, mas vídeos e listas de sintomas não substituem uma avaliação clínica. Associar qualquer distração ou dificuldade de organização ao transtorno pode levar a conclusões precipitadas.
“Desde a pandemia, a saúde mental e a psiquiatria ganharam mais espaço nas discussões públicas. É importante, porém, verificar quem produz esse conteúdo e se a pessoa tem conhecimento técnico sobre o assunto. Identificar se a informação vem de um psicólogo, psiquiatra, neurologista infantil ou especialista em TDAH ajuda a avaliar sua qualidade”, alerta o professor.
“Dizer que todo mundo tem um pouco de TDAH é perigoso, especialmente para quem convive com o transtorno e conhece seus impactos. A desatenção no trabalho, por exemplo, pode ser consequência de uma noite mal dormida, do estresse ou de preocupações do cotidiano, sem estar relacionada ao TDAH.”
O diagnóstico é clínico e considera os sintomas, o histórico desde a infância e os prejuízos em diferentes áreas da vida. Entrevistas estruturadas e instrumentos de avaliação podem auxiliar a investigação. Testes neuropsicológicos também podem ser utilizados quando indicados, mas nenhum teste isolado ou conteúdo encontrado na internet confirma o transtorno.
Tratamento e apoio no dia a dia
O tratamento pode combinar medicamentos, quando indicados, e psicoterapia, além de estratégias para organizar a rotina e facilitar a convivência com familiares e colegas.
“Além dos medicamentos, terapias estruturadas com psicólogo, como a Terapia Cognitivo-Comportamental voltada para o TDAH, são muito eficazes. O tratamento e o acompanhamento ajudam a reduzir os atritos e tornam a convivência menos desgastante. Isso faz diferença”, destaca o psiquiatra.
O TDAH não impede uma trajetória profissional produtiva. O reconhecimento dos sintomas e o acesso à avaliação e ao tratamento adequado podem reduzir os prejuízos e melhorar a qualidade de vida de crianças, adolescentes e adultos.

