As propostas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) para a educação apresentam diferenças em áreas como financiamento do ensino público, educação em tempo integral, universidades e formação de professores. Em entrevista ao Portal WSCOM, a pedagoga Mabel Petrucci, doutora em Sociologia pela Universidade do Minho, em Portugal, e o professor titular da UFPB, Lúcio Flávio Vasconcelos, analisaram os principais pontos dos programas e os possíveis impactos para estudantes e profissionais da educação.
Entre as propostas de Lula, os especialistas destacaram a continuidade do Pé-de-Meia, a ampliação da educação em tempo integral, o fortalecimento da formação docente e a expansão da educação profissional e tecnológica. No programa de Flávio Bolsonaro, foram mencionados o ensino domiciliar (homeschooling), as escolas cívico-militares, os vouchers educacionais, a adoção do método fônico na alfabetização e a distribuição de recursos vinculada a metas de desempenho.
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Para Mabel Petrucci, a análise das propostas deve considerar a responsabilidade do Estado na garantia do direito à educação. “Ao longo da minha trajetória, compreendi que a qualidade da educação depende tanto das práticas pedagógicas quanto das condições sociais e institucionais oferecidas aos estudantes e professores”, afirmou.
Ensino básico e educação em tempo integral
Ao analisar as propostas de Lula, Lúcio Flávio Vasconcelos destacou quatro medidas: a continuidade do Pé-de-Meia, a ampliação da educação em tempo integral, a expansão dos institutos federais e das universidades federais e o fortalecimento do Programa Universidade para Todos (Prouni).
Sobre o Pé-de-Meia, o professor ressaltou a importância do incentivo financeiro para estimular a permanência dos estudantes no ensino médio. Em relação à jornada ampliada, destacou que a proposta busca permitir que os alunos permaneçam mais tempo na escola.
Mabel Petrucci, por sua vez, chamou atenção para a diferença entre educação em tempo integral e educação integral.
“A primeira está relacionada à ampliação da jornada escolar. A segunda envolve uma concepção mais ampla de formação, que contempla o desenvolvimento intelectual, físico, emocional, social e cultural dos estudantes. Considero fundamental que a ampliação da jornada esteja acompanhada de planejamento, infraestrutura, formação docente e oportunidades diversificadas de aprendizagem”, afirmou ela.
Mabel também destacou a necessidade de considerar as desigualdades sociais na avaliação dos resultados educacionais. “Os indicadores de desempenho são importantes, mas precisam ser interpretados considerando a realidade de cada escola. Uma escola situada em uma comunidade socialmente vulnerável pode precisar de investimentos adicionais para enfrentar dificuldades que ultrapassam o espaço escolar”, disse.
No programa de Flávio Bolsonaro, a especialista destacou a ênfase na gestão por resultados, no reforço escolar, na disciplina e na ampliação das escolas cívico-militares. “Educação de qualidade exige aprendizagem, mas também equidade, participação e condições concretas para ensinar e aprender”, declarou.
Ensino domiciliar e vouchers educacionais
Entre as propostas de Flávio Bolsonaro, Lúcio Flávio Vasconcelos destacou o ensino domiciliar, conhecido como homeschooling, modalidade em que os pais ou responsáveis assumem a educação dos filhos fora do modelo convencional de escolarização.
“A escola é que tem a possibilidade de melhor formação no sentido do ensino, no sentido do ensino para a cidadania”, afirmou.
Outro ponto discutido foi a adoção de vouchers educacionais, mecanismo pelo qual famílias podem receber recursos públicos para custear vagas em instituições privadas, conforme as regras de implementação.
“Isso é um problema porque vão ter pessoas de classe média e abaixo de classe média que vão optar por ensino privado em vez do ensino público e aí você vai ter uma ampliação dessa distorção entre ensino público e ensino privado que já existe no nosso país”, avaliou.
Ensino técnico e universidades públicas
A expansão da educação profissional e tecnológica está entre as propostas de Lula destacadas pelos especialistas. O programa prevê o fortalecimento da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, incluindo os institutos federais, além de medidas para ampliar o acesso e a permanência no ensino superior.
Mabel Petrucci também citou propostas de criação de instituições como a Universidade Indígena e a Universidade do Esporte, além do fortalecimento das políticas de assistência estudantil.
No programa de Flávio Bolsonaro, a pedagoga destacou a intenção de aproximar a formação técnica das demandas do mercado de trabalho e a proposta de transferir a gestão das universidades para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
“Precisamos ter cuidado para não reduzir a finalidade da educação à preparação para o mercado. A formação técnica também precisa desenvolver pensamento crítico, autonomia intelectual, capacidade de participação social e condições para que o estudante continue seus estudos”, acrescentou ela.
Ao falar sobre as universidades públicas, Mabel relacionou a discussão à própria trajetória acadêmica, que inclui a graduação em Pedagogia, o mestrado em Educação na UFPB e o doutorado em Sociologia na Universidade do Minho, em Portugal. “A universidade pública brasileira desempenha uma função fundamental na formação de professores, profissionais da saúde, pesquisadores e tantos outros profissionais necessários ao desenvolvimento do país”, declarou.
A especialista também defendeu que eventuais mudanças administrativas sejam acompanhadas de esclarecimentos sobre seus efeitos. “Qualquer mudança precisa preservar a autonomia universitária, a liberdade acadêmica, o financiamento da pesquisa e as políticas de permanência estudantil”, afirmou.
Lúcio Flávio Vasconcelos também questionou a transferência das universidades para outra estrutura ministerial. Para o professor, a medida pode ampliar a distância entre os diferentes níveis de ensino. “Quando você transfere as universidades para o Ministério da Ciência e Tecnologia, você amplia esse fosso, amplia essa distância entre o ensino fundamental, o ensino médio e o ensino superior”, avaliou.
“Os recursos do Ministério da Ciência e Tecnologia são muito escassos”, afirmou o docente, ao explicar sua preocupação com a mudança de vinculação das universidades.
Pesquisa científica e autonomia universitária
A atuação dos órgãos de financiamento da ciência também foi abordada por Vasconcelos. O professor citou o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), responsáveis por apoiar pesquisas, bolsas e programas de pós-graduação.
“Se passa a ter uma triagem dentro da perspectiva deles e controlar as pesquisas para evitar, entre aspas, novamente a doutrinação, você vai ter aí um direcionamento para que valorize apenas as pesquisas que sejam de interesse do grupo bolsonarista”, afirmou.
A preocupação, segundo o professor, está relacionada ao discurso de combate à chamada “doutrinação” nas universidades e aos possíveis efeitos de eventuais alterações nas regras de financiamento científico.
Mabel Petrucci também ressaltou a importância de preservar a produção acadêmica nas instituições públicas. “O conhecimento produzido nas universidades públicas é um patrimônio social. Sua produção e sua democratização precisam ser compreendidas como responsabilidades do Estado”, declarou.
Formação e valorização dos professores
A formação continuada aparece entre os temas abordados pelos dois candidatos. Mabel citou iniciativas do governo Lula, como o Mais Professores para o Brasil e o Pé-de-Meia Licenciaturas, voltadas ao incentivo à formação e ao fortalecimento da profissão docente.
Em relação a Flávio Bolsonaro, a especialista mencionou a ênfase no acompanhamento da aprendizagem, na formação orientada por evidências e no uso de indicadores educacionais para orientar a gestão.
“Valorizar o professor envolve remuneração, carreira, formação inicial, formação continuada, autonomia pedagógica, condições de trabalho e tempo para planejamento. Na minha atuação com formação de professores, observo a importância de aproximar os processos formativos das necessidades concretas das escolas”, disse ela.
Lúcio Flávio Vasconcelos também destacou a presença da formação continuada entre os pontos abordados pelos dois candidatos, mas ressaltou a necessidade de avaliar como as medidas serão executadas.
Educação inclusiva e garantia de direitos
Os impactos das propostas sobre estudantes da educação especial também foram abordados por Mabel Petrucci, que atua na área. A pedagoga citou a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva, instituída pelo Decreto nº 12.686/2025 e posteriormente alterada pelo Decreto nº 12.773/2025.
“Mas sabemos que a existência de uma legislação, por si só, não garante sua efetivação. Precisamos de investimentos, formação continuada, acessibilidade, profissionais qualificados e acompanhamento das políticas públicas”, afirmou.
Mabel também destacou o caráter histórico dos direitos educacionais das pessoas com deficiência.
“Não podemos tratar direitos conquistados historicamente como benefícios que podem ser reduzidos conforme as prioridades de cada gestão. A educação pública precisa avançar na garantia de direitos, e não perder as condições necessárias para efetivá-los”, afirmou.
O que o eleitor deve observar antes de votar
Para os especialistas, a comparação entre os programas exige atenção ao financiamento da educação pública, à valorização dos professores, à redução das desigualdades e às condições de acesso e permanência dos estudantes.
Mabel Petrucci também recomendou que os eleitores analisem o histórico das políticas desenvolvidas pelos governos e verifiquem os resultados alcançados, sem deixar de considerar os problemas que ainda precisam ser enfrentados. “Não se trata de atribuir antecipadamente consequências a medidas que ainda não foram implementadas, mas de exigir que seus efeitos sejam esclarecidos e debatidos pela sociedade”, afirmou.
A especialista destacou que o debate eleitoral precisa considerar os efeitos concretos das propostas sobre a população. “Para mim, a educação não pode ser reduzida a indicadores de desempenho ou às necessidades imediatas do mercado de trabalho. Ela precisa formar cidadãos, ampliar oportunidades, desenvolver o pensamento crítico e contribuir para uma sociedade mais justa e democrática”, declarou.
Lúcio Flávio Vasconcelos também defendeu que os eleitores analisem os programas antes de decidir o voto. “Cabe a nós, eleitores e eleitoras, analisar com bastante cuidado, com bastante atenção, quais são essas duas propostas e escolher aquela que, no seu entendimento, é justamente a melhor proposta para o país”, afirmou.
