55 anos da morte de Lamarca, por Rui Leitão

Há exatos 55 anos, em 17 de setembro de 1971, Carlos Lamarca era morto no povoado de Pintada, município de Ipupiara, no sertão da Bahia, durante a Operação Pajussara, conduzida por forças da repressão política da ditadura militar. A operação foi comandada pelo então major Nilton de Albuquerque Cerqueira, chefe do DOI-CODI de Salvador e da 2ª Seção do Estado-Maior da 6ª Região Militar.

Lamarca era, naquele momento, um dos principais líderes da luta armada contra o regime militar e havia se transformado em um dos homens mais procurados pelos órgãos de segurança. Depois de uma longa fuga pelo sertão baiano, foi localizado extremamente debilitado, após enfrentar condições adversas e percorrer centenas de quilômetros. Estava descansando sob uma árvore, ao lado de José Campos Barreto, o Zequinha, quando foi cercado e alvejado. O relatório da CNV registra disparos vindos de diversas direções, inclusive pelas costas.

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A trajetória de Lamarca ajuda a compreender a complexidade daquele período. Desde jovem desejava ser militar. Em 1955, antes de completar 18 anos, ingressou na Escola Preparatória de Cadetes e posteriormente estudou na Academia Militar das Agulhas Negras, formando-se oficial do Exército. Sua experiência militar incluiu a participação na Força de Paz da ONU no Oriente Médio. Com o passar dos anos, porém, Lamarca passou a desenvolver uma visão cada vez mais crítica da realidade social brasileira e do próprio papel desempenhado pelas Forças Armadas após o golpe de 1964.

Em 1969, já capitão, desertou do Exército e ingressou na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), levando consigo armas e munições do quartel de Quitaúna. Tornou-se um dos principais dirigentes da organização e passou a atuar na luta armada contra a ditadura. A VPR se fundiu naquele mesmo ano com o Comando de Libertação Nacional (COLINA), dando origem à Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). Posteriormente, em 1971, Lamarca passou a integrar o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). A partir daí, passou a viver na clandestinidade, escondendo-se em apartamentos e casas utilizados pelas organizações clandestinas, conhecidos como “aparelhos”.

É justamente essa trajetória que fez de Carlos Lamarca uma das figuras mais controversas da história política brasileira do século XX. Para setores da esquerda, tornou-se símbolo de resistência à ditadura e personagem quase mítico da luta revolucionária,

Sua morte representou um duro golpe para as organizações da luta armada. Aos 33 anos, o antigo capitão do Exército, transformado em guerrilheiro, encerrava uma trajetória marcada por contradições profundas: o homem que sonhara, desde jovem, em vestir a farda acabou desertando justamente para combatê-la; o militar formado pelo Estado brasileiro tornou-se um de seus mais perseguidos inimigos; e o oficial treinado para defender o regime terminou morto pelas forças de segurança que o caçavam.

Passados 55 anos, Carlos Lamarca continua sendo uma personagem incontornável para quem procura compreender os chamados anos de chumbo. Não é necessário transformar o personagem em santo ou demônio para reconhecer sua importância histórica. É preciso, sobretudo, compreender o homem, suas escolhas, suas convicções, os conflitos de seu tempo e, principalmente, as circunstâncias de sua morte.

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