PF aponta que servidores do Banco Central atuaram como consultores de Vorcaro em favor do Banco Master

Relatórios tornados públicos no STF indicam que Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana orientavam o banqueiro, revisavam documentos e teriam recebido pagamentos

Banco Master
Foto: Reprodução

Relatórios da Polícia Federal tornados públicos nesta sexta-feira (11) apontam que dois servidores afastados do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, teriam atuado de forma recorrente como consultores informais do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.

Segundo a investigação, os servidores teriam fornecido orientações sobre questões relacionadas à supervisão bancária, analisado documentos considerados sensíveis e participado de discussões de interesse dos negócios de Vorcaro. A PF também identificou indícios de pagamentos pelos serviços prestados.

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As informações passaram a ser conhecidas após o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirar o sigilo de parte dos documentos relacionados ao caso Banco Master.

Atuação de Paulo Sérgio

Paulo Sérgio Neves de Souza ocupava uma função de chefia adjunta no Departamento de Supervisão Bancária (Desup) do Banco Central, setor responsável por acompanhar, entre outros pontos, o capital, a liquidez, a gestão e os mecanismos de controle interno das instituições financeiras.

De acordo com a PF, a atuação do servidor teria ultrapassado suas atribuições e adquirido características de uma “verdadeira assessoria paralela”.

Em dezembro de 2023, Paulo Sérgio enviou a Vorcaro sugestões sobre os assuntos que deveriam ser discutidos em uma reunião com o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

Entre as orientações estava a estratégia de apresentar o Banco Will como uma instituição capaz de ampliar a oferta de serviços de pagamento e contas correntes para a base de clientes do Credcesta, estimada em cerca de 4 milhões de pessoas.

O Banco Master, em parceria com a Reag Investimentos, adquiriu o Will Bank em fevereiro de 2024. Em janeiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição.

Para a PF, a sequência dos acontecimentos indica que as orientações dadas por Paulo Sérgio, independentemente de terem sido integralmente seguidas, ocorreram em um contexto que posteriormente resultou na aquisição do banco.

O servidor também teria atuado, a pedido de Vorcaro, em uma discussão sobre regras de enquadramento de entidades relacionadas à Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc).

Revisão de documentos do Banco Master

Em abril de 2025, Vorcaro preparou um ofício do Banco Master destinado ao Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central e pediu que Paulo Sérgio revisasse o texto.

A documentação estava relacionada a indicadores de liquidez que precisavam permanecer em níveis considerados adequados. Segundo a investigação, o servidor devolveu o material com sugestões de alteração.

Para a Polícia Federal, episódios como esse reforçariam a hipótese de que Paulo Sérgio mantinha uma atuação próxima aos interesses do banqueiro.

Grupo com Vorcaro e Belline

A relação investigada pela PF também envolve Belline Santana, ex-chefe de departamento da área de supervisão bancária do Banco Central.

Em outubro de 2025, Belline criou um grupo de mensagens com Vorcaro e Paulo Sérgio. Ao apresentar a finalidade do grupo, afirmou que a intenção era facilitar a comunicação entre os envolvidos.

Em uma das primeiras conversas, Belline analisou um documento encaminhado por Vorcaro e sugeriu alterações no texto para evitar possíveis questionamentos.

A PF avalia que a criação do grupo e as conversas nele realizadas fazem parte de um padrão de atuação que já vinha sendo identificado nas mensagens e ligações entre os envolvidos.

Segundo o relatório, os elementos analisados apontariam para uma espécie de consultoria prestada a Vorcaro por meio de mensagens, ligações e revisão de documentos.

Relação começou antes do grupo

Os contatos entre Belline e Vorcaro, segundo a investigação, começaram antes da criação do grupo.

Em novembro de 2023, o servidor teria procurado o banqueiro para tratar de assuntos relacionados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Já em abril de 2024, Belline conversou com Vorcaro sobre a possibilidade de marcar uma reunião com a participação de Paulo Sérgio.

Questionado sobre o tema do encontro, Belline teria definido o assunto como uma “visão prospectiva e estratégica”.

Para a PF, a expressão chama atenção porque, na avaliação dos investigadores, o assunto não estaria diretamente relacionado às funções exercidas por Belline no Banco Central, mas aos interesses comerciais de Vorcaro.

Pagamentos a Belline

A investigação também identificou mensagens que, segundo a PF, indicariam pagamentos destinados a Belline.

Em dezembro de 2023, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, avisou ao banqueiro que havia um pagamento a ser feito ao servidor. Vorcaro questionou se o dinheiro sairia diretamente do banco, e Zettel indicou que a operação seria realizada de outra forma.

As mensagens sobre os pagamentos continuaram ao longo de 2024 e 2025.

Em outubro de 2024, Zettel teria esclarecido que parte de um valor enviado a Leonardo Palhares seria destinada, na realidade, ao pagamento de Belline. O montante mencionado nas mensagens era de R$ 760 mil.

Em julho de 2025, novas conversas mostram Belline cobrando um pagamento. Zettel informou a Vorcaro que o dinheiro seria encaminhado por meio de outras empresas antes de chegar ao destinatário.

A PF também aponta que pagamentos relacionados a Belline teriam ocorrido durante uma viagem de Vorcaro à França.

Investigação do caso Banco Master

Os documentos fazem parte das investigações relacionadas ao Banco Master que tramitam no STF.

O ministro André Mendonça retirou o sigilo de parte dos procedimentos após solicitação do presidente da Corte, Edson Fachin. Com a decisão, documentos de diferentes inquéritos, reclamações e petições passaram a estar disponíveis.

As informações divulgadas pela PF agora detalham a relação entre Daniel Vorcaro e os servidores do Banco Central, incluindo supostas orientações internas, revisão de documentos e pagamentos que são objeto de apuração.

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