PF investiga financiamento de filme sobre Bolsonaro e cumpre mandados contra produtora e deputado

Operação apura repasses milionários ao exterior que teriam sido destinados à produção de “Dark Horse”; investigação também mira outras 20 pessoas e tramita no STF

A Polícia Federal deflagrou, nesta quinta-feira (10), uma operação para investigar suspeitas de irregularidades no financiamento do filme “Dark Horse”, produção que conta a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Entre os alvos da ação estão a produtora Karina Gama e o deputado federal Mario Frias (PL-SP). Os investigadores também cumprem diligências relacionadas a outras 20 pessoas.

A investigação é relatada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), e ganhou novos elementos após a homologação, na quarta-feira (9), do acordo de colaboração premiada do empresário Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”.

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O empresário é proprietário da Entre Investimentos e afirmou aos investigadores que teria atuado sob orientação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo dono do Banco Master, para realizar operações financeiras internacionais solicitadas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Segundo informações que embasam a operação e reportagens publicadas pelo Intercept Brasil em maio, Flávio Bolsonaro teria solicitado recursos a Vorcaro para financiar a produção do longa-metragem.

Os valores, conforme as investigações, foram direcionados ao Havengate Development Fund, fundo de investimentos sediado nos Estados Unidos e administrado pelo advogado Paulo Calixto, que tem ligação com o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

Em depoimento à Procuradoria-Geral da República (PGR), prestado em agosto, “Mineiro” afirmou que uma de suas funções no grupo de Vorcaro era obter dinheiro em espécie para pagamentos de propina.

Sobre o financiamento do filme, o colaborador relatou ter realizado sete operações internacionais classificadas como “subscrição de cotas” em favor do fundo norte-americano. As transações foram feitas entre janeiro e setembro de 2025 e somaram US$ 12,333 milhões, valor equivalente a aproximadamente R$ 62,8 milhões na cotação da época.

Documentos apresentados por “Mineiro” à Polícia Federal e ao Ministério Público incluem comprovantes bancários e mensagens de e-mail. O material contradiz, segundo os investigadores, a afirmação de Flávio Bolsonaro de que os repasses teriam sido interrompidos em maio de 2025. Uma das últimas transferências identificadas ocorreu em setembro, no valor de US$ 1,666 milhão.

O colaborador também afirmou que o planejamento inicial de Vorcaro previa o envio de aproximadamente US$ 24 milhões ao fundo, divididos em mais de dez operações que seriam realizadas até janeiro de 2026. O esquema estaria respaldado por um contrato denominado Letter of Agreement.

O cronograma, no entanto, não teria sido concluído porque Vorcaro foi preso preventivamente pela primeira vez em novembro de 2025.

Além das transferências para os Estados Unidos, “Mineiro” relatou pagamentos realizados em outros países a partir de faturas encaminhadas por Vorcaro. Para essas operações, teria sido utilizada a Entre Investments and Arbitrage Ltd., empresa sediada em Nassau, nas Bahamas.

A Polícia Federal investiga a possibilidade de recursos mantidos em estruturas financeiras no Caribe terem sido posteriormente enviados ao Havengate Development Fund ou direcionados a pessoas físicas ligadas ao grupo político da família Bolsonaro.

Um dos objetivos da apuração é identificar se todo o dinheiro destinado ao fundo foi efetivamente utilizado na produção de “Dark Horse” ou se parte dos recursos teria sido empregada em despesas pessoais e na manutenção de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

A assessoria de Flávio Bolsonaro afirmou que as informações sobre as contas e as justificativas relacionadas ao financiamento do filme são apresentadas pela produtora Go Up.

A empresa contratou uma auditoria privada que declarou, em junho, ter identificado regularidade nas contas da produção. Segundo a auditoria, o longa teve custo total de R$ 75 milhões, integralmente financiado pelo Havengate. Até o momento, porém, a produtora não tornou públicas as notas fiscais e os comprovantes referentes às despesas da obra.

O advogado de Antonio Carlos Freixo Junior, Marco Petrelluzzi, afirmou que não comentará o conteúdo da colaboração premiada em razão do sigilo de Justiça que envolve o processo.

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