O celular se tornou parte da rotina dos jovens e está presente em diferentes momentos do dia, desde as conversas e os estudos até o entretenimento e o período que deveria ser reservado ao descanso. A relação com o aparelho exige atenção quando passa a interferir no sono, na concentração, na convivência ou na capacidade de se desconectar. A necessidade constante de conferir notificações, a dificuldade de ficar longe do celular e a sensação de ansiedade quando o dispositivo não está por perto estão entre os sinais que podem indicar uma relação pouco equilibrada com as telas.
Embora o contato dos jovens com a tecnologia seja uma preocupação permanente, o tema ganha ainda mais espaço durante o Setembro Amarelo, período que reforça a importância da valorização da vida, da promoção do autocuidado e da atenção à saúde mental. Nesse contexto, discutir os hábitos relacionados ao uso das telas também é uma forma de estimular uma interação mais consciente com a tecnologia e de observar como esse comportamento pode interferir no cotidiano, nas relações e no bem-estar emocional.
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O problema não está necessariamente no aparelho, mas na forma como ele é incorporado à rotina. A afirmação é de Valéria Nicolau, professora de Psicologia da Faculdade Internacional da Paraíba (FPB), integrante do maior e mais inovador ecossistema de qualidade do Brasil: o Ecossistema Ânima.
“O celular pode ser uma ferramenta importante de comunicação, informação e lazer. A preocupação surge quando seu uso começa a substituir atividades essenciais, como dormir adequadamente, conviver presencialmente, estudar, praticar atividades físicas ou simplesmente ficar algum tempo sem estímulos”, explica.
Higiene do sono
Um dos impactos mais perceptíveis do uso excessivo do celular aparece na hora de dormir. Conteúdos rápidos, notificações e a sucessão constante de novidades nas redes sociais podem manter a atenção do usuário e estimular a continuidade da navegação, dificultando a interrupção do uso, especialmente antes de dormir. Esse fluxo constante de estímulos pode fazer com que vídeos curtos, curtidas e outras interações digitais levem o usuário a perder a noção do tempo.
Por isso, de acordo com a psicóloga, além de estabelecer limites para o tempo de uso do aparelho, a adoção de uma rotina de higiene do sono pode ajudar a reduzir os estímulos antes de dormir. Entre as recomendações está interromper o uso do celular e de outras telas uma a duas horas antes de ir para a cama, criando um período de desaceleração para o organismo.
“A higiene do sono envolve justamente a criação de condições para que o corpo e a mente entendam que é hora de desacelerar. Quando o celular permanece presente até os últimos minutos antes de dormir, especialmente com conteúdos que despertam curiosidade e expectativa, esse processo pode ficar mais difícil. Ter um intervalo sem telas antes de deitar é uma forma simples de estabelecer esse limite”, explica Valéria.
O elo entre celular, ansiedade e sono também pode ter outra perspectiva. Um jovem ansioso pode recorrer ao aparelho como forma de distração ou tentativa de aliviar emoções desconfortáveis. O alívio momentâneo, entretanto, pode favorecer a repetição desse comportamento e fazer com que o celular seja cada vez mais utilizado nesse sentido.
Nomofobia
O desconforto intenso diante da possibilidade de ficar sem o celular ou sem acesso à comunicação proporcionada pelo aparelho é frequentemente associado ao termo nomofobia. A expressão é utilizada para descrever sentimentos de medo ou ansiedade relacionados à impossibilidade de utilizar o dispositivo. O problema não está simplesmente em usar muito o aparelho, mas na intensidade do desconforto e no quanto essa atitude começa a interferir na vida cotidiana.
“É importante diferenciar o uso frequente de uma relação de dependência. Quando a pessoa sente angústia intensa ao ficar sem o celular, precisa verificar constantemente se recebeu mensagens ou notificações ou deixa de realizar atividades importantes por não conseguir se desconectar, temos sinais de que é preciso olhar para esse comportamento com mais atenção. O celular não deve ocupar o lugar das relações, do descanso, dos estudos, do lazer e de outras experiências importantes para o desenvolvimento”, alerta a psicóloga.
Essa avaliação também precisa considerar o contexto de cada jovem. Ansiedade, alterações no sono e sofrimento emocional têm múltiplas causas, e o uso do celular pode ser apenas um dos fatores envolvidos. Por isso, mais do que estabelecer uma relação direta entre o uso de telas e transtornos mentais, o importante é observar mudanças persistentes de comportamento, prejuízos na rotina e sinais de sofrimento que indiquem a necessidade de apoio profissional.
CVV
Buscar ajuda também faz parte do cuidado. Caso haja necessidade de conversar ou buscar apoio emocional, existem canais gratuitos e sigilosos de acolhimento. O Centro de Valorização da Vida (CVV) atende pelo telefone 188, de forma gratuita, 24 horas por dia, todos os dias da semana.
