A repercussão envolvendo a influenciadora Virginia Fonseca reacendeu o debate sobre racismo estrutural e responsabilidade digital no Brasil após a publicação de um vídeo em que ela aparece beijando um macaco em um zoológico, no dia seguinte ao término com o jogador Vini Jr., o que desencadeou uma série de comentários racistas direcionados ao atleta por parte de seus seguidores nas redes sociais.
Siga o canal do WSCOM no Whatsapp.
Diante da repercussão negativa, a influenciadora se pronunciou afirmando que, em nenhum momento, teve a intenção de estimular ataques preconceituosos. Ainda assim, o episódio abriu espaço para novas discussões sobre como figuras públicas precisam compreender o impacto simbólico e social de determinadas publicações, sobretudo quando envolvem pessoas negras historicamente alvo de desumanização e racismo.
Para a consultora de letramento racial e de gênero Tainara Ferreira, o caso expõe uma falha grave na preparação de artistas e influenciadores que já possuem grandes estruturas de comunicação e equipes especializadas em gestão de imagem.
“Figuras públicas não podem mais ser levianas. Porque atualmente, com a forte discussão disso dentro da nossa sociedade, é inadmissível que artistas que já têm uma estrutura de porte e que já alcançaram um prestígio, tenham atitudes criminosas como essa. Se no nosso país fosse efetivo no cumprimento da lei contra o racismo, com certeza os artistas se preocupariam com esse tema”, afirmou.
Tainara ressalta que o episódio se torna ainda mais preocupante por atingir um atleta que constantemente denuncia ataques racistas dentro e fora do Brasil. Para ela, situações assim reforçam a naturalização de violências simbólicas contra pessoas negras, especialmente homens negros em espaços de destaque.
Responsabilidade pública

Tainara Ferreira (Foto – Divulgação)
Ao comentar o assunto, Tainara relembrou outros episódios recentes envolvendo artistas brasileiros e destacou como as reações diante das críticas revelam diferentes níveis de compromisso com o letramento racial.
Um dos casos citados por ela aconteceu durante o Carnaval de Salvador deste ano, quando a cantora Carla Perez utilizou um segurança negro como apoio para subir em suas costas durante uma apresentação, gerando forte repercussão negativa nas redes sociais. Segundo Tainara, o pedido de desculpas posterior não substitui a necessidade de aprofundamento sobre questões raciais.
Por outro lado, ela apontou o cantor Oh Polêmico como exemplo de artista que decidiu compreender melhor o debate racial e modificar sua postura pública a partir disso. O artista integra a mentoria da Deiyi Desconstruir, empresa de consultoria coordenada pela especialista.
“Existe uma diferença muito grande entre apenas pedir desculpas e realmente decidir aprender. Oh Polêmico entendeu a importância desse debate e buscou se aprofundar, isso se reflete diretamente nas atitudes dele enquanto artista e também na forma como a equipe passa a enxergar determinadas situações. O letramento racial muda o comportamento e posicionamento público”, destacou.
A consultora afirma que ações educativas e de conscientização ainda são pouco acessíveis para artistas independentes e profissionais que estão fora do circuito do entretenimento mainstream, realidade marcada pela precarização do trabalho cultural. Entretanto, ela pontua que grandes influenciadores e celebridades possuem recursos suficientes para se cercar de profissionais preparados e evitar situações como essa.
“Uma coisa é ser artista, que é independente, que não tem estrutura, muitas vezes, nem para se alimentar direito, a gente sabe que viver de arte no nosso país é muito difícil, mas outra coisa é ver artistas deste cacife que ainda estejam na retaguarda e não sejam responsáveis com a audiência que eles carregam, isso é um problema crônico e sistemático que precisa ser quebrado”, completou Tainara.