Fiscal responsável pela interdição de produtos Ypê foi indicado por Bolsonaro

Ministro da Saúde critica vídeos de apoiadores que consomem produtos interditados e alerta para riscos à saúde da população

Colagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Reprodução

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, usou a tribuna desta segunda-feira (11) para rebater as acusações de perseguição política à marca Ypê e virar o argumento contra os próprios bolsonaristas: o diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) responsável pela área técnica que determinou a suspensão dos produtos foi indicado ao cargo durante o governo Jair Bolsonaro.

Daniel Meirelles Fernandes Pereira comanda a quarta diretoria da Anvisa, que abriga a Gerência-Geral de Inspeção e Fiscalização Sanitária — a mesma responsável pela resolução que determinou as medidas relativas aos produtos Ypê. Ele foi indicado em abril de 2022 pelo então presidente Jair Bolsonaro.

“O diretor que é responsável por essa área na Anvisa foi indicado por Bolsonaro, foi assessor e secretário-executivo do ministro do governo Bolsonaro e está na Anvisa cumprindo o cargo e tendo a responsabilidade de cumprir papel técnico”, afirmou Padilha à imprensa.

Memes e vídeos irresponsáveis

Padilha afirmou que conteúdos viralizados nas redes sociais tentam transformar uma questão técnica e sanitária em disputa política. “Tivemos no fim de semana uma enxurrada de vídeos irresponsáveis que desinformam a população, tentando transformar algo técnico, relacionado à saúde das pessoas, em disputa política porque essa empresa financiou campanhas do ex-presidente da República”, declarou.

A preocupação do ministério vai além da desinformação. Um dos vídeos que mais circularam nas redes mostra um homem ingerindo detergente da marca em gesto de apoio à empresa. Padilha alertou para o risco de que outras pessoas reproduzam o comportamento: “Não sejam irresponsáveis com a saúde das pessoas, como vários de vocês foram durante a pandemia.”

A mobilização bolsonarista reuniu políticos e figuras públicas. O vice-prefeito de São Paulo, coronel Ricardo Mello Araújo (PL), gravou vídeo lavando louças com detergente Ypê e convocou apoiadores: “Vamos acabar com essa sacanagem que estão fazendo com essa empresa 100% brasileira.” O senador Cleitinho também gravou vídeo usando o produto, enquanto desafiava a Anvisa a fiscalizar “a bucha de cada brasileiro”.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro publicou uma imagem de um detergente da marca em seu perfil no Instagram, acompanhada da frase “Dia lindo”.

A interdição e o risco sanitário

No dia 7 de maio, a Anvisa determinou o recolhimento de detergentes, sabão líquido para roupas e desinfetantes de todos os lotes da Ypê com numeração final 1, fabricados em Amparo, no interior de São Paulo, além de suspender a produção. As autoridades sanitárias identificaram falhas em etapas essenciais do processo produtivo e irregularidades que poderiam representar risco à saúde dos consumidores.

Padilha ainda revelou que a própria empresa havia identificado contaminação anteriormente. “A própria empresa, no final do ano passado, chegou a identificar no seu lote a presença de uma bactéria que não deveria estar nesse produto. Toda vez que se encontra uma bactéria nesse produto é um sinal de precaução importante, porque isso pode significar contaminação em várias etapas do processo de produção”, disse o ministro.

O Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo reforçou que o risco sanitário permanece e que a liminar obtida pela empresa não autoriza o consumo nem a comercialização dos produtos investigados. O órgão orienta que consumidores deixem de utilizar os produtos incluídos na medida sanitária e que estabelecimentos comerciais retirem os itens das prateleiras.

Padilha também destacou que a fiscalização foi conduzida por técnicos da Anvisa, do Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo — estado governado por Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliado de Bolsonaro — e da Vigilância Sanitária de Amparo, ao longo de quatro dias.

O vínculo com Bolsonaro

A Química Amparo, responsável pela marca Ypê, é administrada pelos irmãos Waldir Beira Júnior, Jorge Beira e Ricardo Beira. Durante as eleições de 2022, integrantes da família destinaram, juntos, R$ 1,5 milhão à campanha de Jair Bolsonaro à reeleição.

Em nota, a Ypê informou que mantém suspensa a linha de produção dos produtos afetados desde o dia 7, independentemente da liminar obtida, e que segue colaborando com as autoridades na busca por uma solução definitiva.

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