A arte cinematográfica parece historicamente girar ao redor de uma singela, porém complexa, pergunta: o que é o real? Seria o cinema capaz de sustentar uma representação verídica do mundo, ou ao menos de algo ou alguém? Se sim, que verdades seriam essas? Por quê? Há 131 anos buscamos respostas e mais questões seguem surgindo, no coração do que significa um filme ‘documentário’, sendo o Brasil, inclusive, um dos mais proeminentes países na história do cinema a questionar a lógica do documentário perante o ‘real’ e ensinar ao mundo a densa camada que existe entre a câmera e a realidade. Esse ano, porém, é um filme estadunidense que parece confluir uma parte dessas questões em um filme cujo título carrega em si a opacidade inerente à questão central da cinematografia.
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Tudo Pode Ser Visto é um longa-metragem dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim, no que se classifica usualmente como um ‘meta documentário’, ou seja, um documentário que se debruça sobre a sua própria realização e que questiona seus próprios limites de representação. Aqui, Fielder e Lance se aproximam de uma temática bastante específica: a vida privada da infame Elizabeth Holmes, fundadora da empresa de tecnologia da saúde Theranos e condenada à mais de uma década de prisão por fraude. Semanas antes de se entregar à polícia, as câmeras e os microfones invadem sua casa e declaram de forma explícita – em alguns momentos, até demais – sua relação com seu parceiro Billy e seus filhos diante de sua prisão iminente.
A presença de Nathan Fielder nesse filme é incomparável: com uma alma humorística, são suas respostas à estranheza daquela experiência, gravadas de forma claustrofóbica, que dão ritmo às interações e vão expondo ao longo do filme as limitações da narrativa que o casal constrói sobre si mesmos – e um sobre o outro. Tudo isso é encapsulado pela trilha sonora sinistra de Ari Balouzian, que parece estruturar com seus sintetizadores o tempo da montagem e nos levar em um movimento, para dentro e para fora daquela intimidade, de permanente exame sobre o que é real e o que é falso.
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No escuro do Cinema São Luiz, na XVII Janela Internacional de Cinema do Recife, chegou um determinado momento em que não acreditei que em pouco mais de uma hora, o objeto central do filme parecia se exaurir à nossa frente, afinal, Holmes foi presa em 2023. É ali, porém, que Tudo Pode Ser Visto alcança outro patamar da representação: na dificuldade ou na ausência de fontes documentais, como ultrapassar e transformar o obstáculo em parte da investigação cinematográfica? Fielder e Lance apontaram suas câmeras e microfones na direção certa. Senti-me, então, vendo um filme de Eduardo Coutinho.
Os dois terços finais do filme parecem mergulhá-lo em uma investigação potente que ressoa com o legado que o cinema brasileiro inscreveu diretamente sobre a trajetória do cinema mundial. A cada obstáculo, uma resposta eletrizante é dada pelos diretores, numa construção quase obsessiva pela realidade, questionando até mesmo a ideia da reencenação.
É uma jornada impressionantemente bem pensada – e, sendo um documentário, extremamente bem adaptada – que posiciona Tudo Pode Ser Visto em um certo panteão de documentários do século XXI que apanharam perguntas já feitas (e até mesmo respondidas) sobre a natureza do documentário e dobraram a aposta dos limites da cinematografia, com um tema bastante particular e uma abordagem estética extremamente apurada, especialmente da fotografia impressionante dirigida por David Bolen.
O saudoso Linduarte Noronha – diretor do clássico paraibano deflagrador do moderno documentário brasileiro, ‘Aruanda’ – já reforçava décadas atrás o papel ativo do documentário no ato de ‘representar a realidade’, que para ele era mesmo o ato de construí-la. “O cinema não reproduz, o cinema cria”, dizia Linduarte. Tudo Pode Ser Visto será um desses filmes marcantes na história do cinema contemporâneo a expandir de forma inteligente e sensível o perímetro do documentário e questionar a própria posição do cinema em relação à ‘realidade’ que tenta (ou não) enquadrar – ou seja, criar.
* Juan Vilar é diretor de “Fragmentária” e “Sick Of Moving Images”, curtas selecionados pro Curta Bangüê II e III e pro Fest Aruanda do Audiovisual Internacional da Paraíba. Atualmente trabalha em “Vórtice” seu primeiro filme de ficção.
Exibição no São Luiz conecta longa à proposta curatorial do festival
A exibição de “Tudo Pode Ser Visto” integrou a programação da 17ª edição do Janela Internacional de Cinema do Recife, realizada no Cinema São Luiz, marcando a segunda apresentação do longa-metragem na América Latina. Sob a curadoria de Kleber Mendonça Filho e Pedro Azevedo Moreira, o evento concentrou todas as suas sessões na histórica sala da Rua da Aurora, articulando produções contemporâneas internacionais com mostras retrospectivas e títulos representativos do audiovisual brasileiro. Nesse circuito, a investigação documental proposta pela obra de Nathan Fielder e Lance Oppenheim dialogou diretamente com o recorte do festival, que priorizou a reflexão sobre a linguagem cinematográfica e o papel das salas de rua na formação do público.


