Rui Leitão: censura às artes plásticas

Rui Leitão resgata a história da censura às artes plásticas e a exposição de Raul Córdula na Paraíba.
(Foto: Reprodução)

As manifestações artísticas sempre foram uma forma de expressão política. Não no sentido da política partidária, mas no seu sentido mais verdadeiro, qual seja o de valorizar conceitos de cidadania e exercer papel fundamental nas transformações sociais. A história universal é pródiga no registro da arte se confundindo com a política.

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A criatividade na arte recebe um estímulo especial em períodos considerados revolucionários. A década de sessenta, e especialmente o ano de 1968, assumiu essa característica de tempo das mudanças. Um tempo inquietação, de questionamentos sobre passado, presente e futuro, de rupturas aos padrões conservadores, de contestação aos regimes políticos que oprimiam o povo e cerceavam sua liberdade. Por isso a efervescência cultural da época.

No Brasil vivíamos um cenário social, cultural e político, propício a que a arte assumisse potencial poder ideológico e, por conseqüência, revolucionário. Por isso mesmo a ditadura militar enxergava na cultura o perigo de que através dela se divulgasse idéias consideradas subversivas ou atentatórias aos valores ultramoralistas do regime instalado em 1964.

Instaurou-se, portanto, um rígido controle da produção cultural no país. A censura prévia proibia toda e qualquer manifestação artística que violasse os conceitos políticos e morais do governo. O braço repressor da ditadura alcançou também as artes plásticas. Em 1968 a II Bienal de Salvador foi fechada um dia após a sua inauguração, com vários dos seus quadros confiscados pelos censores por serem considerados subversivos ou imorais.

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Na Paraíba, no dia dez de junho, agentes da Polícia Federal interditaram o andar térreo da Reitoria da Universidade Federal da Paraíba, proibindo a exposição de quadros do pintor Raul Córdula por considera-la “ofensiva à moral e o pudor público”.

A medida policialesca da ditadura mereceu protestos da comunidade intelectual paraibana. O escultor Breno Matos suspendeu a exposição que faria naquele mesmo local em solidariedade ao colega.

O artista que teve a sua exposição de quadros proibida comentou:

“Acho muito engraçado numa época em que o erotismo está tão difundido, onde em qualquer revista se vê anúncios de produtos usando o nu, e o que é pior, depois de uma greve contra a censura, vitoriosa na Guanabara, isso aconteça na Paraíba. Meus censores esquecem que no mesmo dia da inauguração da exposição, estava sendo encenada a peça “Dois perdidos numa noite suja”, no teatro do governo.

O que diriam meus censores se entrassem no Museu do Prado e vissem o imortal Goya? E o Louvre, com as obras de Monet, Renoir Rubens, Modigliani, ou mesmo se vissem o teto da Capela Sistina? Sem dúvidas corariam diante da Vênus de Milo.
Meus quadros que falam dos anticoncepcionais são poemas de louvor a um tema da maior importância moral e social e as imagens que apresento cantam a dignidade de um logotipo, abstraindo a figura ao máximo, tirando todo o realismo”.

Em razão da repercussão negativa da censura que lhe foi imposta, segundo ele, pelo Conselho Universitário da UFPb, o pintor Raul Córdula foi chamado ao Palácio da Redenção pelo então governador João Agripino, onde em audiência relatou sua decepção com o ocorrido. Ato contínuo o governador determinou à Secretaria de Educação do Estado que permitisse a exposição dos quadros proibidos pela Censura Federal em qualquer dos prédios de caráter cultural pertencentes ao governo. A exposição censurada foi então transferida para a galeria de artes José Américo de Almeida, no Teatro Santa Rosa.

Rui Leitão

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