Após o fim das eleições presidenciais, o futuro econômico do Brasil segue sendo pauta de debates. A partir de 2027, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) receberá o país de sua própria gestão, com promessas de dar continuidade aos trabalhos já iniciados e melhorar aspectos não solucionados na gestão atual.
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Entre os temas centrais da economia brasileira para os próximos anos está a redução da jornada de trabalho, a situação vigente das contas públicas, a política monetária do Banco Central e o impacto dessas variáveis no bolso do cidadão comum.
Escala 6×1 e produtividade
Em entrevista ao programa Correio Debate nesta quarta-feira (28), o economista Cássio Besarria analisou a viabilidade da transição para a nova escala de trabalho 5×2. O especialista destacou que a produtividade é o fator principal para garantir o sucesso da medida.
“A grande chave aí, é a questão da produtividade. […] Se diminui a entrega, é natural precisar contratar mais alguém para complementar aquela produção”, pontuou.
Besarria explicou que setores mecanizados, como a agricultura e a indústria, tendem a sofrer menos impactos. O verdadeiro desafio reside nos setores de comércio e serviços, que representam mais de 70% da produção no estado da Paraíba, onde a atividade é essencialmente manual.
Como alternativa a uma mudança linear, ele sugere um modelo de transição gradual, semelhante ao adotado na reforma tributária. Para o economista, o prazo estimado de 12 a 14 meses para a execução da medida é considerado “pouco”.
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O cenário fiscal
Ao comparar os indicadores econômicos do final de 2022 com as projeções para o fim do atual mandato em 2026, Besarria apontou que o presidente Lula enfrentará um cenário fiscal consideravelmente mais fragilizado.

Enquanto a inflação recuou de 6,47% em outubro de 2022 para uma projeção de 4,77% em 2026, e a taxa Selic permaneceu no mesmo patamar de 13,75%, a área fiscal foi mais impactada negativamente. O país passou de um superávit primário de 1,75% do PIB em 2022 para um déficit de 0,62%.
“O Lula vai estar entregando para ele mesmo uma inflação menor […] Onde é que muda o cenário, né? Muda justamente na parte fiscal. Em 2022, nós tínhamos um superávit primário de 1,75% […] Agora nós temos um déficit de 0,62%”, afirmou.
Embora o endividamento público seja uma tendência global observada também em potências como a China e os Estados Unidos, Besarria alerta que o Brasil não possui a mesma margem de manobra desses países devido à sua falta de credibilidade histórica e vulnerabilidade à inflação.
“Um ponto-chave em toda essa história é a tal da credibilidade. Os Estados Unidos tem credibilidade para dever 100% do PIB, 200% do PIB. O Brasil talvez não tenha essa credibilidade ainda”, esclareceu o economista.
Sem essa confiança do mercado, o governo é obrigado a emitir títulos públicos pagando juros mais elevados para conseguir se financiar, gerando um ciclo vicioso de endividamento.
Banco Central
Sobre a condução da política monetária, o economista defendeu a autonomia do Banco Central para definir a taxa Selic com base na inflação e na atividade econômica. No entanto, ele alertou para o perigo da chamada “dominância fiscal”, situação em que a autoridade monetária perde a capacidade de agir de forma ativa.
“O Banco Central deixa de ter um papel ativo na economia e passa a ter um papel passivo. É o que a gente chama de dominância fiscal. Ou seja, hoje o Banco Central está mais preocupado com o lado fiscal do que com o seu principal objetivo, que seria a inflação”, pontuou.
Alternativa aos cortes
Diante de um orçamento federal no qual cerca de 90% correspondem a despesas obrigatórias, Besarria argumenta que a saída para equilibrar as contas sem realizar cortes severos em áreas essenciais como saúde e educação é trazer o setor informal para a formalidade. No entanto, ele ressalta que essa transição não deve ocorrer de forma punitiva ou apenas arrecadatória.
“Muitas vezes, as políticas que são feitas são mais de coerção do que de busca para trazer essas pessoas para o setor formal. (…) A minha proposta seria algo mais abrangente. ‘O que é que te torna informal?’ ‘Por que você foi para o lado informal?’ E tentar entender esses dados”, argumentou.
Nesse sentido, ele avaliou de forma positiva a recente aprovação do aumento dos limites de faturamento do Microempreendedor Individual (MEI) para R$ 110 mil no próximo ano e R$ 140 mil em 2028.
“Esse indivíduo vai conseguir crescer, ele vai conseguir ter maturidade para poder pular de faixa. Esse é um caminho na minha opinião. Uma medida acertada”, defendeu.
Incerteza externa e metas de inflação
O economista também comentou sobre a instabilidade no cenário internacional, apontando que ameaças de tarifas externas geram incertezas que impactam o câmbio e a inflação interna. Embora o Brasil tenha aliviado parte desse risco ao abrir novos mercados de exportação, o ambiente de desconfiança continua sendo prejudicial.
Sobre a meta de inflação brasileira (atualmente fixada entre 3% e 3,5%), Besarria sugeriu que o país pode estar diante do momento ideal para uma revisão de parâmetros.
“Eu acho que é de fato muito audacioso […] desde quando o Brasil implementou o regime de metas de inflação […] a gente tinha deixado de cumprir a meta por três ou quatro anos. Agora isso tem se tornado regular. […] Então, talvez seja um momento de reavaliar, se aquilo ali não seja uma meta muito audaciosa para uma economia como a economia brasileira”, concluiu.