O consumo de produtos internacionais por e-commerce disparou no Brasil nos últimos meses. Com o fim da tributação simplificada para pequenas encomendas, o volume de importações subiu 67% no trimestre entre junho e agosto de 2026 frente a 2025, de acordo com dados oficiais compilados pela indústria têxtil nacional. As informações são da Folha de S. Paulo.
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No período, consumidores brasileiros receberam US$ 1,61 bilhão, cerca de R$ 8,2 bilhões, em mercadorias comercializadas por plataformas como Shein, Shopee e AliExpress. No mesmo intervalo de 2025, o volume financeiro havia sido de US$ 867 milhões, ou aproximadamente R$ 4,9 bilhões em valores corrigidos.
A aceleração ocorreu depois que o governo Lula zerou, em maio, o Imposto de Importação federal de 20% que incidia sobre encomendas de até US$ 50. A mudança foi inicialmente implementada por medida provisória, posteriormente aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em setembro.
Importações saltam 74% em agosto
Os números de agosto mostram com mais clareza a dimensão da mudança. Foram declaradas 26,5 milhões de remessas internacionais, contra 15,2 milhões no mesmo mês de 2025 — crescimento de 74%. Em valores, as compras passaram de US$ 294 milhões para US$ 526 milhões, avanço de 79%.
Os dados abrangem as remessas declaradas por meio do Programa Remessa Conforme, inclusive operações superiores a US$ 50. Portanto, o crescimento não pode ser atribuído exclusivamente às compras que passaram a contar com isenção do imposto federal.
O movimento, porém, intensificou a reação de empresários brasileiros, especialmente dos setores têxtil e de confecção, que estão entre os mais expostos à concorrência das plataformas internacionais.
Indústria protesta contra diferença tributária
A Abit afirma que o fim da cobrança ampliou uma assimetria entre os produtos fabricados no Brasil e aqueles vendidos diretamente ao consumidor por empresas estrangeiras.
Segundo a entidade, o setor têxtil e de vestuário pode representar até 40% das importações feitas por consumidores por meio dessas plataformas. A associação argumenta que fabricantes brasileiros precisam arcar com impostos e exigências trabalhistas, ambientais, sanitárias e regulatórias que não incidem da mesma maneira sobre as mercadorias adquiridas diretamente no exterior.
Fernando Pimentel, presidente emérito da Abit, defendeu uma compensação tributária caso o governo não pretenda restabelecer o imposto sobre as pequenas encomendas.
“Se não querem aumentar o imposto de importação, que zerem os impostos federais que afetam a competitividade da indústria”, afirmou Pimentel à Folha, mencionando tributos como PIS e Cofins. “Nós não temos medo da concorrência.”
Produção cai e setor perde empregos
A reação empresarial ocorre também em meio à deterioração de indicadores do setor. Em julho, a produção têxtil caiu 6,8%, enquanto a produção de confecções recuou 8,2% na comparação anual. Até junho, mais de 13 mil postos formais de trabalho haviam sido perdidos no setor.
A Abit, no entanto, não atribui toda a retração ao comércio eletrônico internacional. Pimentel aponta uma combinação de fatores, entre eles o avanço das importações convencionais, a fraqueza das vendas no mercado doméstico, os custos de frete e o patamar elevado dos juros. O dirigente descreveu o cenário enfrentado pela indústria como uma “tempestade perfeita”.
Taxa foi criada em 2024 e derrubada em 2026
A chamada “taxa das blusinhas” começou a ser cobrada em agosto de 2024 e estabeleceu uma alíquota federal de 20% para compras internacionais de até US$ 50 realizadas em plataformas participantes do Remessa Conforme.
A medida havia sido defendida pela indústria e pelo varejo nacional como uma forma de reduzir a diferença tributária em relação às plataformas estrangeiras. Com a crescente impopularidade da cobrança entre os consumidores, Lula editou em maio de 2026 uma medida provisória suspendendo o imposto.
O Congresso posteriormente aprovou o fim da cobrança e Lula sancionou a nova regra em 10 de setembro, a 24 dias do primeiro turno da eleição presidencial. O ICMS cobrado pelos estados sobre essas compras, porém, foi mantido.
Os primeiros números posteriores à mudança mostram, portanto, dois efeitos simultâneos: consumidores brasileiros ampliaram fortemente as compras em plataformas internacionais, enquanto representantes da indústria nacional aumentaram a pressão sobre o governo por medidas que reduzam o que consideram uma desigualdade nas condições de competição.
Crédito: Agência Brasil

