Estudo aponta que reconquista do mercado interno pela indústria química pode somar R$ 161 bi ao PIB

Estudo do IDQ aponta que indústria química pode adicionar R$ 161 bilhões ao PIB e criar 1,5 milhão de empregos.
(Foto: Reprodução)

O Instituto Nacional do Desenvolvimento da Química (IDQ) apresentou, nesta segunda-feira (31), em São Paulo, o estudo “Panorama do Complexo Químico Brasileiro e Agenda Estratégica”. Elaborado pela LCA Consultoria Econômica em parceria com a Macrotempo, o levantamento traz um raio-X da indústria química nacional e propõe ações para destravar investimentos, impulsionar a inovação e ampliar a sustentabilidade e a competitividade do setor.

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O estudo mostra que a participação da produção nacional no consumo aparente doméstico caiu de 80%, em 2005, para 63%, em 2023, em um movimento acompanhado pelo avanço das importações e pela geração de um déficit comercial setorial superior a US$ 40 bilhões anuais.

Durante o lançamento, o diretor-presidente do IDQ, Marcelo Pimentel, destacou que o estudo representa uma nova etapa na atuação da entidade, ao ampliar o debate sobre o papel da indústria química no desenvolvimento do País.

“Nós estamos falando aqui de prosperidade, de desenvolvimento do País, de qualidade de vida para a população e do futuro da economia brasileira. A química é a base para o desenvolvimento de todo o restante da economia, é a base da indústria nacional, representando o 3º maior setor do PIB industrial e geradora de 2 milhões de empregos diretos, indiretos e efeito renda. Além disso, é responsável pelo pagamento de salários muito superiores à média da indústria e do restante da economia, pelos maiores investimentos em P&D e ocupa a 6ª posição no ranking mundial”, afirmou.

Para ele, entre os principais fatores que afetam o desenvolvimento da indústria química estão a desvantagem estrutural em matéria-prima, o elevado custo da energia elétrica, entraves regulatórios, a concorrência desleal, o mercado ilegal e a falta de escala produtiva em segmentos estratégicos. O estudo também aponta a necessidade de melhorar a coordenação entre os diferentes órgãos públicos envolvidos em temas como matéria-prima, energia, crédito e regulação.

Um dos principais pontos apresentados pelo estudo é o papel da indústria química como cadeia habilitadora de diferentes setores da economia brasileira. O segmento atua, diretamente, em quatro das seis missões estruturantes da Nova Indústria Brasil (NIB): cadeias agroindustriais sustentáveis e digitais; complexo econômico-industrial da saúde; infraestrutura, saneamento, moradia e mobilidade; e bioeconomia, descarbonização e transição energética.

“A indústria química fornece insumos essenciais para áreas como agricultura, saúde, infraestrutura e energia. Entre eles estão fertilizantes, defensivos agrícolas e bioinsumos; Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs) e reagentes; resinas, polímeros, cloro e coagulantes utilizados em infraestrutura e saneamento; além de materiais e soluções voltados à transição energética, à bioeconomia e à reciclagem avançada”, esclarece o cientista política Leonardo Barreto, diretor da Think Policy BR, que moderou o painel das associadas ao IdQ no evento e foi responsável pelo estudo de análise de abordagem do Instituto.

Ao apresentar o estudo, o ex-presidente do BNDES e responsável pelo estudo, professor Luciano Coutinho, destacou que o Brasil reúne ativos capazes de favorecer a expansão da indústria química, como reservas de gás natural, matriz elétrica de baixa emissão, abundância de biomassa, biodiversidade e um amplo mercado consumidor. “O desafio está em transformar essas vantagens em competitividade, por meio de maior coordenação das políticas industrial, energética, de crédito e regulatória”, explicou Coutinho, que complementou:

“Não se pode pensar em uma economia moderna sem indústria, nem em uma indústria moderna sem a indústria química. O Brasil precisa encontrar uma solução própria, considerando suas características e vantagens, inclusive a possibilidade de desenvolver uma petroquímica de baixo carbono. Mas é preciso enfrentar, sobretudo, a questão estrutural da oferta de matérias-primas e construir políticas sistêmicas que permitam tornar o setor mais competitivo”, afirmou.

Indústria Química pode ser passaporte para o futuro do Brasil

As simulações econométricas apresentadas no estudo apontam um potencial significativo associado à recuperação da participação da indústria nacional no atendimento à demanda doméstica. De acordo com as estimativas fundamentadas na Matriz Insumo-Produto, a reconquista do mercado interno pela produção brasileira poderia adicionar R$ 161 bilhões ao PIB até 2036, gerar R$ 55 bilhões em massa salarial, criar 1,5 milhão de empregos e incrementar R$ 38 bilhões em arrecadação tributária.

O estudo indica que o Brasil possui condições para transformar a necessidade de substituição de importações em uma oportunidade de desenvolvimento tecnológico e industrial, especialmente a partir de seus recursos naturais e de sua capacidade instalada. Entre as oportunidades identificadas estão o avanço da bioeconomia e o desenvolvimento de uma petroquímica de baixo carbono.

Para o professor Luciano Coutinho, a recuperação da competitividade não deve se limitar a medidas de proteção comercial. “O objetivo precisa ser tornar o complexo químico brasileiro mais competitivo, com matéria-prima barata, crédito, energia e condições sistêmicas que permitam o desenvolvimento da indústria”, ressaltou.

A partir do diagnóstico, o estudo apresenta uma Agenda Estratégica para o fortalecimento do complexo químico brasileiro, estruturada em diferentes frentes de atuação. As propostas, que serão compartilhadas com parlamentares e com os candidatos às eleições de outubro, são embasadas por um Manifesto e pela íntegra do estudo contratado pelo IdQ.

Entre as principais propostas estão:
  • Aumento da oferta e da destinação do gás natural para uso petroquímico;
  • Fortalecimento do suprimento doméstico de nafta;
  • Expansão da produção de fertilizantes e Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs);
  • Melhoria e harmonização do ambiente regulatório;
  • Combate à ilegalidade;
  • Redução dos custos de energia e logística;
  • Isonomia tributária;
  • Fortalecimento da governança institucional.

Os resultados do estudo, que também considerou as melhores práticas adotadas por vários países para o desenvolvimento da indústria química local, como China, Japão, Estados Unidos, entre outros, foram discutidos durante o evento por representantes das entidades que integram o IDQ: Abiclor, Abifina, Abiquim, Abiquifi, Abrafati, CropLife Brasil e Conselho Federal de Química. O painel, moderado pelo professor Leonardo Barreto, abordou os diagnósticos apresentados a partir da perspectiva de diferentes segmentos da indústria química e discutiu os desafios e oportunidades considerados prioritários para a construção da Agenda Estratégica.

O caminho que temos de percorrer passa pela aliança do setor e de toda a cadeia. Essa união é uma condição para que haja força política e para que a gente consiga superar a visão de que a indústria é um custo”, afirmou Marcelo Pimentel, diretor-presidente do IDQ.

A agenda estratégica, proposta pelo estudo capitaneado pelo IdQ, propõe a criação do Grupo Executivo para o Desenvolvimento do Complexo Químico (GECQ), vinculado à Casa Civil da Presidência da República e ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a ser integrado ao próximo mandato, além da estruturação de comissões temáticas permanentes com participação do Congresso Nacional, governo, setor produtivo e das entidades representativas do setor, além da sociedade, para transformar o diagnóstico do IdQ em propostas voltadas ao fortalecimento da indústria química e ao desenvolvimento econômico, tecnológico e social do País.

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