O paradoxo da inteligência barata: o que vale a pena fazer com o nosso tempo?

inteligência artificial

 

Por Luiz Renato Regis de Oliveira Lima, Ph.D. em Economia pela Universidade de Illinois, Estados Unidos.

A inteligência artificial costuma ser discutida a partir de duas narrativas aparentemente incompatíveis. De um lado, investidores enxergam uma revolução tecnológica capaz de justificar investimentos de centenas de bilhões de dólares em chips, centros de dados, energia e infraestrutura. De outro, empresários como Elon Musk imaginam um futuro em que inteligência artificial e robôs humanoides produzirão tamanha abundância de bens e serviços que trabalhar poderá se tornar opcional e o próprio dinheiro perderá grande parte de sua importância.

As duas histórias parecem contraditórias. Se a inteligência artificial será tão abundante que seu preço tenderá a zero, por que as empresas que investem nela hoje valeriam trilhões de dólares? Essa pergunta revela um dos paradoxos econômicos mais interessantes da revolução da IA: o paradoxo da inteligência barata

O valor social de uma tecnologia não é necessariamente igual ao lucro obtido pelas empresas que a desenvolveram. Imagine que uma atividade realizada hoje por um profissional por 100 reais possa ser executada por uma inteligência artificial por alguns centavos. Inicialmente, a empresa que desenvolveu essa tecnologia poderá cobrar 50 reais pelo serviço. O consumidor economiza 50 reais e a empresa obtém uma enorme margem de lucro. É justamente a expectativa desses lucros que provoca a corrida atual por investimentos em inteligência artificial.

Mas margens extraordinárias atraem concorrentes. Novos modelos aparecem, chips ficam mais eficientes e o custo da computação cai. O serviço que custava 50 reais passa a custar 20, depois cinco, depois um real. Para a sociedade, isso é extraordinário. Para o investidor que financiou uma infraestrutura caríssima esperando lucros elevados durante décadas, talvez não seja. É perfeitamente possível, portanto, que a inteligência artificial seja uma das tecnologias mais importantes da história e, ao mesmo tempo, que muitos dos investimentos realizados durante sua expansão apresentem retornos decepcionantes.

A história econômica oferece precedentes. As ferrovias transformaram os Estados Unidos, mas inúmeros investidores perderam fortunas financiando sua expansão. A internet revolucionou a economia mundial, embora grande parte das empresas da bolha “pontocom” tenha desaparecido. Os investidores daquela época estavam certos sobre a tecnologia e errados sobre quem capturaria os lucros. A inteligência artificial pode repetir essa história em escala ainda maior. O aspecto mais curioso é que essa crise não necessariamente aconteceria porque a inteligência artificial fracassou. Poderia acontecer porque ela funcionou bem demais. Quanto mais rapidamente o custo da inteligência cair, mais difícil poderá ser preservar os lucros extraordinários utilizados para justificar os investimentos atuais.

Até aqui estamos falando essencialmente de inteligência. A transformação realmente radical ocorre quando a IA ganha braços e pernas. Considere um robô humanoide capaz de trabalhar em uma fábrica. Inicialmente, sua produção ainda depende de engenheiros, operários, programadores, caminhoneiros e trabalhadores da mineração e da construção.

Mas imagine o estágio seguinte. Robôs passam a fabricar outros robôs. E não apenas isso. Robôs constroem as fábricas onde novos robôs serão produzidos. Operam minas que fornecem seus materiais. Constroem usinas que fornecem sua energia. Dirigem os veículos que transportam seus componentes. Teríamos então algo qualitativamente diferente de qualquer sistema produtivo conhecido: capital produzindo capital de forma crescentemente autônoma. Nesse mundo, o custo de produzir capital poderia cair dramaticamente.  Nesse ponto, o processo se tornaria circular: IA produz robôs; robôs constroem fábricas; fábricas produzem mais robôs; robôs constroem energia e mineração; energia e materiais permitem produzir ainda mais IA e robôs.

É aqui que a hipótese de uma economia de abundância deixa de ser completamente fantasiosa. Até a escassez da terra, como terrenos à beira-mar, pode ser parcialmente evitada se robôs puderem escavar enormes lagos, transportar areia, construir praias artificiais, plantar vegetação e erguer casas sofisticadas praticamente sem trabalho humano. Eles não criariam um novo oceano, mas poderiam criar excelentes substitutos para parte da experiência proporcionada por uma propriedade à beira-mar.  Isso revela uma distinção importante entre escassez física e escassez econômica. A quantidade de litoral natural continuará limitada, mas seu valor econômico depende da existência de substitutos. Se a tecnologia conseguir reproduzir 90% da experiência proporcionada por uma casa à beira-mar por uma pequena fração do preço, o prêmio associado ao litoral natural poderá diminuir. A tecnologia, portanto, não combate a escassez apenas aumentando a quantidade de bens existentes. Ela também cria substitutos para aquilo que antes considerávamos insubstituível.

O dinheiro desapareceria? É nesse ponto que a previsão de Elon Musk se torna mais interessante. Se inteligência, trabalho robótico e capital reproduzível se tornarem extremamente baratos, o custo de inúmeros bens poderá cair drasticamente. Alimentos, transporte, produtos industriais, construção, educação e diversos serviços poderiam ser produzidos em quantidades muito superiores às necessidades humanas. Nesse cenário, a diferença entre possuir 100 mil ou 10 milhões de reais teria importância muito menor para o padrão material de vida, mas isso não significa necessariamente o desaparecimento do dinheiro. A razão é simples: algumas coisas continuarão escassas e, talvez mais importante, os seres humanos provavelmente inventarão novas formas de escassez.

Quando tudo for barato, o que será caro? Imagine um mundo em que uma inteligência artificial possa criar bilhões de músicas por dia praticamente sem custo. Uma música produzida por IA teria preço próximo de zero, mas assistir a um concerto executado ao vivo por determinado músico humano continuaria sendo uma experiência limitada. Um estádio possui número finito de lugares; um artista possui apenas 24 horas por dia; um professor pode conversar pessoalmente com um número limitado de estudantes; um atleta pode participar de apenas algumas competições; um amigo pode dedicar apenas parte de seu tempo a outra pessoa. A abundância de máquinas, portanto, poderia aumentar o valor relativo daquilo que é autenticamente humano.  Há uma consequência ainda mais importante. À medida que bens materiais se tornassem baratos, o consumo migraria para experiências; viagens, esportes, competições, clubes, festivais, aventuras, atividades científicas, exploração, convivência e eventos poderiam ocupar parcela crescente da vida econômica.

Portanto, a escassez não desaparece,  ela se desloca. Talvez essa seja a conclusão econômica mais importante. Ao longo da história, o progresso tecnológico não eliminou nossos desejos. Ele eliminou determinadas formas de escassez e criou novas formas de consumo. Podemos representar o processo como uma sequência: a inteligência era escassa., mas a IA a torna abundante; o trabalho era escasso, mas robôs podem torná-lo abundante; o capital era escasso, mas máquinas capazes de produzir máquinas podem torná-lo muito mais abundante. Energia e minerais tornam-se então os gargalos, mas a automação, novas fontes de energia, mineração robotizada e reciclagem reduzem essas restrições. A escassez migra novamente. No limite, ela pode se concentrar justamente naquilo que é mais difícil de reproduzir: tempo, atenção humana, relações pessoais, autenticidade, determinadas localizações e experiências únicas.

O dinheiro provavelmente sobreviverá. Por isso, parece exagerado imaginar uma sociedade literalmente sem dinheiro. Uma conclusão mais plausível é que o dinheiro se torne progressivamente desnecessário para obter aquilo que hoje chamamos de necessidades materiais. A economia se dividirá em dois grandes setores. De um lado, o setor da abundância e do outro lado,  o setor da escassez. Os preços tenderiam a desaparecer no primeiro setor e permaneceriam importantes no segundo. O dinheiro não desapareceria, mas  mudaria de função: ele deixaria de ser fundamental para garantir sobrevivência e conforto material e passaria a funcionar principalmente como instrumento para disputar aquilo que continuasse escasso. A pergunta relevante deixaria de ser “como você ganha dinheiro?” e passaria a significar algo mais profundo: “O que você decidiu fazer com seu tempo?” O seu tempo será o recurso que talvez nunca se torne abundante. O seu tempo é um recurso que nem a inteligência artificial nem milhões de robôs consegueriam facilmente multiplicar. Por isso que os investimentos de maior retorno em uma sociedade de abundância não serão ações, títulos ou imóveis, mas aquilo que aumenta a qualidade do recurso que permanece escasso: nossa própria vida, ou seja, saúde; amizades; família; esportes; arte; nossa comunidade.

O grande paradoxo da revolução da inteligência artificial pode, portanto, ser este: passamos séculos utilizando tecnologia para produzir mais coisas e acumular mais riqueza, mas se essa tecnologia finalmente tiver sucesso extremo, poderemos descobrir que aquilo que realmente importa é justamente o que as máquinas não conseguem produzir em quantidade ilimitada. E talvez seja por isso que a previsão de um mundo de abundância não represente o fim da economia. Representaria apenas uma mudança em sua pergunta fundamental.

Em vez de perguntar “como produzir mais?”, a sociedade passaria cada vez mais a perguntar:

“O que vale a pena fazer com o nosso tempo?”

 

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