O debate em torno do fim da jornada de trabalho no modelo 6×1 (seis dias de trabalho para um de descanso) ganha força no país e acende o alerta para setores intensivos em mão de obra, como o de bares e restaurantes. Na Paraíba, 135.379 trabalhadores formais atuam sob essa escala, de acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego.
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Os dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) revelam ainda que o setor de serviços de alimentação é um dos mais impactados, com 47,1% dos empregados na escala. No panorama geral de empregos formais, 64% dos trabalhadores registram jornada superior a 40 horas semanais, índice que sobe para cerca de 75% ao considerar apenas os contratados sob o regime da CLT.
A experiência de quem mudou para 4×3
Apesar do receio de parte do setor empresarial quanto aos custos de abandonar a escala 6×1, experiências no segmento de alimentação provam que a mudança é viável e lucrativa. Em entrevista exclusiva ao Portal WSCOM, Leonardo Gonçalves, barista e proprietário do Cafe ao Leu (Rio de Janeiro), detalhou como a transição para a escala 4×3 melhorou a operação do negócio.
A mudança começou após a constatação de que a escala 6×1 gerava desgaste excessivo e uma alta rotatividade de pessoal (turnover), custosa para a empresa devido aos constantes gastos com demissões e novos treinamentos.
“Nós abrimos seis por um a primeira loja que temos já há sete anos e meio. E a gente viu que a rotatividade era muito grande. A gente ouviu também os funcionários para saber se eles topavam entrar nessa com a gente, visando ter um retorno deles estarem ali com mais felicidade e se empenhando mais”, revelou em entrevista ao WSCOM.

Funcionário assinando contrato com nova jornada. (Foto: Reprodução)
A transição não exigiu o aumento do quadro de funcionários, mas sim uma “engenharia de horários” que eliminou a sobreposição de pessoal em momentos de fraco movimento. A carga horária semanal foi ajustada para o limite máximo de 40 horas, combinando jornadas de 10 horas nos dias de semana e turnos reduzidos nos fins de semana.
“Não contratamos nenhuma pessoa a mais, conseguimos ajustar apenas com essa engenharia de horários mesmo. […] Acredito que essa visão de escala precisa ser vista num sentido de matemática, num sentido de ver o que faz sentido para a empresa, analisar as informações”, pontuou Fabíula Tavares, responsável pela gerência dos estabelecimentos.
Os gestores também destacam que a escala 4×3, somada a benefícios como plano de saúde, Wellhub (plataforma de academias), comissões e salários acima da média do mercado, tornou a empresa um local altamente desejado para se trabalhar.
“No final das contas, eu acho que ficou mais vantajoso financeiramente para nós a escala 4 por 3 do que a 6 por 1 que nós tínhamos. […] Toda hora a pessoa vacila e vai embora e a gente tem que treinar outra pessoa… Então, com a escala 4 por 3 os funcionários estão mais felizes, mais estáveis, mais equilibrados, não querem sair da empresa”, destacou Leonardo.
Resultados obtidos
A reorganização garantiu que os funcionários folgassem dois dias seguidos e mais um dia intercalado na semana, permitindo maior descanso para a equipe. Com colaboradores mais dispostos nos horários de maior fluxo no salão, no bar e na cozinha, o faturamento da empresa cresceu.
Em Copacabana, o ganho de eficiência permitiu que a loja passasse a abrir também aos domingos; já na unidade do Leblon, optou-se por fechar às segundas-feiras para viabilizar as folgas.
“Somente com essas medidas, a gente já conseguiu um operacional com mais pessoas presentes ao mesmo tempo, o que fez nossas vendas aumentarem. No final das contas, ficou mais vantajoso financeiramente para nós a escala 4 por 3 do que a 6 por 1. Os funcionários estão mais felizes, mais estáveis, mais equilibrados e não querem sair da empresa”, reforçou Fabíula.
Para o setor de alimentação, o empresário deixa uma mensagem de reflexão:
“O recado para donos de bares e restaurantes é que é só fazer conta. Não precisa ter medo. O negócio é entregar resultado, e se o colaborador está desgastado e sendo massacrado, dificilmente vai entregar tanto resultado. A mão de obra está terminando, e as pessoas precisam ser bem respeitadas e bem tratadas”, concluiu Leonardo.
Dados locais
Embora a aplicação de escalas alternativas já apresente dados de viabilidade econômica e eficiência na retenção de talentos em estabelecimentos fora do estado, a implementação na Paraíba ainda caminha de forma tímida.
O Portal WSCOM buscou contato com empresas e estabelecimentos do setor de alimentação paraibano para mapear casos locais de adoção de jornadas alternativas à 6×1, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.