O apreço não tem apreço

Sempre gostei de pensar. E deixo meu pensamento solto para refletir sobre o que algumas frases me dizem e mergulho em perguntas como quem abre uma fresta na janela do tempo para pensar.

Na minha vida, há frases que me fizeram pensar e crescer, e muitas delas saíram de dentro de casa, da casa da minha mainha. Meu pai, o Neguinho Durval, gostava de nos educar e de nos mostrar ensinamentos por meio de frases, pedindo para a gente parar e pensar sobre elas.

Um dia desses, durante um bom papo sobre a vida, um amigo querido disse que gostava de pensar. Fiquei imaginando: quem não gosta?

Talvez seja uma forma de construir projetos para a solidão. Gosto de pensar no meu painho, que partiu cedo. Uma de suas frases sempre me fez parar e pensar:

“Você só engana a si mesmo, meu filho, e mais ninguém.” “Me diga, o que essa frase te diz, Durvalzinho? Pare, aquiete-se e reflita.”

Assim, eu aprendi pensando sozinho, mas tendo que refletir sobre frases. Criar imaginários e cenários com pensamentos sérios. Pensar.

Pensar me faz sentir pequeno e grande ao mesmo tempo, cercado de ambiguidades, diversidades e hipocrisias. Pensar é bom. É maravilhoso sentir vontade de viver, imaginar cenários e cenas. Porém, o próprio pensamento me levou a imaginar que certas ideias são como nuvens passageiras.

“Meu filho, se ligue! Todo dia saem de casa um burro e um sabido. Espero que você não encontre nenhum deles.” Essas frases sempre foram, para mim, uma forma de carinho, metáforas para pensar, para sonhar, viajar… delirar. Quando uma pessoa, entre poucos amigos, me convida para passear e pensar com ela, sinto que desse gesto vem o carinho, estar perto e pensar em companhia.

“O AFETIVO É EFETIVO NA ESPÉCIE HUMANA.” Ao longo do caminho, frases vão chegando, adentrando e ficando. Essa é uma das frases mais felizes que já ouvi e me faz parar para pensar. Ela foi dita por esse amigo que gosta de pensar e passear.

Esse pensar do afeto na espécie humana é de Mira y López, um médico psiquiatra espanhol, e me foi apresentado por um amigo médico, um homem considerado aqui na cidade.

Até hoje, gostaria de saber como ele entrou na minha vida e chegou na hora certa, no tempo certo, pois eu estava iniciando a jornada de pai de menina.

Já recebi e ouvi tantos pensamentos dos outros que, às vezes, tudo em mim parece pensamento. Gosto dessa maneira de interagir com os amigos a partir das reflexões de quem tem algo para mostrar.

Ainda acredito que todos temos algo a entregar. Poucos têm algo a ensinar, mas existem aqueles que levamos conosco como guias para outros pensamentos.

Sigo durante o dia pensando, até parar e perguntar: o que seria da gente sem pensar?

Desde aquela conversa, fiquei pensando nos pensamentos que já tive. Foram tantos que não me lembrei de muitos deles. Fiquei aliviado. Parece conversa à toa, mas não é.

Eu saía com esse amigo para passear em João Pessoa. Passeávamos olhando os lugares da cidade, para não perder o prazer de revê-los. Conversávamos e nos encontrávamos com pessoas boas e com pessoas cujas conversas nos ensinavam a pensar juntos.

Encontrávamos Dom Fragoso, Padre Zé Comblin, Seu Múcio Wanderley, primeiro exibidor-mor de cinema, filho de industrial do ramo da exibição, e até Seu Zezinho, um “projecionista proprietário de cinema de bairro”, de Cruz das Armas, primeiro bairro operário da cidade. Fazíamos tour completo pela divagação do prazer de estar juntos, pensando e comungando afetos.

Visitamos os templos, antigos cinemas do centro, o casario dos bairros, andando pela cidade de João Pessoa, ainda Parahyba.

Mais tarde, num sábado, durante uma conversa sobre cinema, eu falei:

“Doutor, o que sempre me fascinou, me fez pensar e abriu uma imensa interrogação foi o curta-metragem: A Ilha das Flores.” “Diga-me duas coisas desse filme que o fizeram pensar?” Respondi: com o polegar opositor, somos capazes de sentir o toque: o toque da criação de Michelangelo e o toque do ET de Spielberg, somos capazes de perceber o sentido material da existência.

“Ele explicou: o homem sente primeiro por meio da cognição. Depois, o polegar opositor permite formar a pinça do fazer.” Segui: É com o polegar que o homem faz um nó e coloca a linha no buraco da agulha. Achar o ponto certo é a busca além do pensar.

Comecei a chamar meu amigo de “Doutor Afetividade”. Ele é uma figura simplesmente bela, a paisagem da natureza em pessoa, um ser GENTE.

O Dr. Afetividade foi um dos grandes presentes que a vida me deu. Quando o encontro, o afeto é garantido. A vila, a urbe e o grupo o reconhecem.

Dr. Afetividade transita entre o pensamento de Sócrates e o preceito de Hipócrates, porque, como uma pessoa que gosta de pensar, me trouxe não apenas frases, mas bons pensamentos e companhia em passeios.

O APREÇO NÃO TEM PREÇO…

“Ao longo do caminho, meu filho, tu encontrarás aquele que te elevará a outras margens.”

Assim, continuo pensando. O afeto é um bálsamo efetivo, que nos aproxima dos amigos por meio de um toque, possível também graças ao polegar opositor.

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