A China que escapa aos nossos mapas conceituais

Pequim, vista de satélite à noite, parece dois países sobrepostos: de um lado, o brilho contínuo dos distritos financeiros e dos polos tecnológicos; de outro, o padrão irregular de bairros populares e áreas rurais ainda em transição. Essa imagem, ainda que superficial, sintetiza bem o desafio que Keyu Jin se propõe a enfrentar em “A Nova China, Para Além do Socialismo e do Capitalismo”: como descrever, com precisão analítica, um país que parece habitar simultaneamente dois sistemas econômicos que a teoria convencional insiste em tratar como mutuamente excludentes? Professora na London School of Economics e uma das vozes mais lúcidas — e menos dogmáticas — a se debruçar sobre o experimento chinês contemporâneo, Jin não se contenta em narrar essa aparente contradição; ela a investiga como sintoma de algo mais profundo, um arranjo institucional que talvez só possa ser compreendido fora das lentes que o Ocidente costuma emprestar ao resto do mundo.

O título já anuncia a provocação central da obra: a insuficiência das categorias binárias que o Ocidente insiste em projetar sobre Pequim. Socialismo ou capitalismo, autoritarismo ou eficiência, Estado ou mercado — Jin desmonta, com paciência de economista e sensibilidade de quem cresceu entre dois mundos, essa gramática dicotômica que há décadas empobrece o debate público sobre a China. Filha de um alto funcionário do Partido Comunista e formada nas mais tradicionais instituições acadêmicas americanas, a autora ocupa um lugar de observação privilegiado: nem apologista ingênua, nem crítica ressentida, mas intérprete de um sistema que ela própria admite ser sui generis, irredutível aos modelos que aprendemos a manejar desde a Guerra Fria.

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Um dos méritos mais notáveis do livro é sua capacidade de dissolver a imagem, tão cara ao imaginário ocidental, de uma China governada por um comando central onisciente e onipresente. Jin nos apresenta, ao contrário, um mosaico de governos locais competindo entre si por investimento, inovação e resultados — uma espécie de federalismo experimental disfarçado sob a fachada de centralismo autoritário. É essa competição intramuros, argumenta a autora, e não um plano quinquenal perfeitamente executado, que explica boa parte do dinamismo econômico chinês das últimas décadas. A tese é instigante porque desloca o eixo da discussão: não se trata de saber se a China é “mais Estado” ou “mais mercado”, mas de compreender como Pequim construiu um sistema híbrido em que o Estado atua simultaneamente como regulador, investidor, experimentador e, quando necessário, algoz de suas próprias criaturas — como demonstrou a recente repressão às gigantes de tecnologia. Jin não esconde as contradições desse arranjo, mas também não cede à tentação fácil de reduzi-lo a um simples autoritarismo de mercado.

O que há de mais valioso no ensaio de Jin, a meu ver, é o convite implícito a que países como o Brasil abandonem a postura de meros importadores de receitas alheias — sejam elas do Consenso de Washington ou de qualquer novo consenso de Pequim. A China, tal como a autora a descreve, não seguiu manual algum: improvisou, testou, errou, corrigiu rota, e fez isso sustentada por um projeto de longuíssimo prazo que nossa cultura política, refém do calendário eleitoral, mal consegue conceber. Isso não significa que o modelo chinês seja exportável — a própria Jin seria a primeira a rejeitar tal ideia. Significa, isso sim, que a experiência chinesa nos obriga a repensar a rigidez com que tratamos nossas próprias categorias de desenvolvimento, Estado e mercado.

“A Nova China” não é um livro de resposta fácil, e talvez resida exatamente aí sua maior virtude. Keyu Jin escreve com a autoridade de quem domina os números, mas também com a cautela de quem sabe que números não contam toda a história. Ao leitor brasileiro, fica o exercício desconfortável e necessário de pensar a China não como espelho a ser copiado, nem como ameaça a ser temida, mas como fenômeno complexo que desafia — e talvez, por isso mesmo, enriqueça — nossa própria imaginação política. Resta, ao final da leitura, a sensação de que compreendemos melhor as perguntas certas a fazer sobre a China contemporânea, ainda que as respostas definitivas continuem, como convém a todo grande experimento histórico em curso, obstinadamente esquivas.

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