Durante décadas, o jornalismo foi definido pelo domínio dos meios de distribuição. O jornal impresso, o rádio e a televisão determinavam o caminho da notícia até o público. Hoje, essa lógica foi profundamente alterada. Os algoritmos das plataformas digitais passaram a organizar o fluxo informacional, influenciando o que vemos, quando vemos e por quanto tempo consumimos determinado conteúdo. Diante dessa transformação, uma pergunta tornou-se inevitável: a produção de conteúdo ameaça o jornalismo ou representa uma oportunidade para reinventá-lo?
Defendo que o maior erro seria tratar os algoritmos como inimigos da profissão. Eles não produzem jornalismo; apenas distribuem informação conforme critérios de relevância, comportamento e engajamento. A responsabilidade sobre a qualidade do conteúdo continua sendo humana. O algoritmo pode ampliar o alcance de uma reportagem, mas jamais substitui a investigação, a escuta qualificada, a checagem rigorosa e o compromisso ético que sustentam o fazer jornalístico.
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Essa percepção tornou-se ainda mais evidente ao longo da minha trajetória profissional. Em quatorze anos de jornalismo, acompanhei diferentes revoluções na comunicação: a consolidação do ambiente digital, a ascensão das redes sociais, a cultura do vídeo curto e, mais recentemente, a influência da inteligência artificial na produção e circulação de conteúdo. Nos últimos dois anos, concentrei grande parte do meu trabalho no ambiente digital, promovendo um reposicionamento profissional por meio do Portal Papo Pop. Esse processo não significou abandonar os fundamentos da profissão, mas compreender que a linguagem precisa evoluir para que a essência permaneça relevante.
Costuma-se afirmar que vivemos a economia da atenção. De fato, nunca houve tanta disputa pelos segundos de interesse do público. Entretanto, velocidade não pode ser confundida com qualidade. Quanto mais acelerada é a circulação das informações, maior é a responsabilidade de quem informa. A apuração continua sendo o centro do jornalismo. É ela que diferencia uma notícia de um boato, um fato de uma opinião e uma informação pública de uma simples publicação nas redes sociais.
Os números reforçam esse desafio. O Digital News Report 2025, publicado pelo Reuters Institute, mostra que as redes sociais e os vídeos continuam ampliando seu protagonismo como porta de entrada para o consumo de notícias, especialmente entre os mais jovens. Ao mesmo tempo, o estudo revela crescente preocupação dos usuários com desinformação e baixa confiança nas informações encontradas nas plataformas digitais (Reuters Institute, 2025). Esse cenário demonstra que, embora o algoritmo determine o alcance, a credibilidade continua sendo o principal patrimônio do jornalismo.
Por isso, acredito que a discussão não deve opor jornalistas e criadores de conteúdo. Existem excelentes profissionais produzindo informação em diferentes formatos e há também conteúdos superficiais tanto dentro quanto fora das redações. A distinção não está na plataforma utilizada, mas no método empregado. Quando há responsabilidade editorial, transparência, contexto e compromisso com os fatos, o conteúdo fortalece o jornalismo. Quando esses elementos desaparecem, qualquer formato torna-se apenas entretenimento ou opinião.
O futuro da profissão dependerá menos da tecnologia e mais da capacidade de adaptação de seus profissionais. Um bom jornalista precisa ser capaz de comunicar uma mesma informação na televisão, no rádio, em um portal de notícias, em um podcast ou em um vídeo de poucos segundos. As plataformas mudam, os formatos se renovam e os algoritmos continuarão evoluindo. O que não pode mudar é a essência do jornalismo: informar com precisão, contextualizar os fatos e servir ao interesse público.
A notícia não está ameaçada pelos algoritmos. Ela é desafiada diariamente a encontrar novas formas de alcançar as pessoas. Reinventar-se, portanto, não significa abrir mão dos princípios da profissão, mas reafirmá-los em cada nova linguagem. No fim das contas, a tecnologia distribui conteúdos; quem constrói confiança continua sendo o jornalista.
* Mateus Silomar é jornalista, criador de conteúdo, apresentador de TV e músico. É fundador do Portal Papo Pop. Ganhador do 1º Prêmio de Jornalismo Inclusivo realizado pelo Jornalistas&Cia com o apoio da HBO Latin America na categoria áudio.