“Estender o tapete vermelho” é uma expressão que imediatamente nos remete à ideia de prestígio, respeito e reconhecimento. O tapete vermelho é, por tradição, a passarela dos eminentes e dos homenageados. É o símbolo visual de uma recepção especial, reservada a quem se pretende distinguir.
A tradição de utilizar tapetes vermelhos como sinal de honra e reverência atravessou séculos. Uma das referências históricas mais antigas aparece na tragédia Agamemnon, de Ésquilo, escrita em 458 a.C. Na peça, o rei Agamemnon retorna da Guerra de Troia e é recebido por sua esposa, Clitemnestra, que manda estender diante dele um caminho de tecidos vermelhos. O rei hesita em pisar sobre eles, considerando que tamanha demonstração de luxo e reverência seria digna apenas dos deuses.
Ao longo da história, o vermelho passou a simbolizar poder, riqueza, distinção e solenidade. A partir do século XIX, o tapete vermelho consolidou-se como parte do protocolo utilizado para receber chefes de Estado e autoridades em visitas oficiais. Mais tarde, tornou-se também uma marca dos grandes eventos culturais, como as cerimônias do Oscar, além de estar presente em ocasiões religiosas e celebrações solenes.
Mas, na política brasileira de hoje, parece que até a cor de um tapete pode adquirir significado ideológico.
Foi o que aconteceu quando o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, decidiu estender um tapete azul para receber o presidente argentino Javier Milei, pouco antes da convenção partidária que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.
A escolha dificilmente pode ser considerada um mero detalhe protocolar. O azul é uma das cores adotadas por setores da da extrema direita para simbolizar uma suposta “onda azul”, expressão usada para representar o avanço de movimentos conservadores em diferentes países, especialmente na América Latina.
O gesto, portanto, parece ter sido cuidadosamente pensado. Afinal, por que substituir o tradicional tapete vermelho pelo azul justamente para receber um presidente estrangeiro que se tornou uma das principais referências da extrema direita internacional?
A resposta pode estar na simbologia política. O vermelho, historicamente associado à esquerda, tornou-se uma espécie de cor proibida para determinados setores da direita brasileira. É a manifestação de uma verdadeira “esquerdofobia”, na qual tudo que possa lembrar a esquerda precisa ser rejeitado, combatido ou, quando possível, substituído.
O curioso é que a política, nesse ambiente, parece ter chegado ao ponto de transformar até mesmo uma cor em inimiga ideológica.
O tapete vermelho, que tradicionalmente representa respeito e honraria, foi trocado pelo azul para receber Milei. A mensagem política parece clara: naquele espaço, a cor vermelha não seria bem-vinda. Era preciso reafirmar, por meio de um símbolo, a identidade ideológica daqueles que estavam reunidos para celebrar a candidatura de Flávio Bolsonaro.
Há ainda uma ironia nessa história. Talvez Tarcísio de Freitas tenha apenas concluído que Javier Milei não era importante o suficiente para receber um tapete vermelho. Afinal, apesar de todo o seu histrionismo, e de sua retórica agressiva, ainda há quem considere que um chefe de Estado deveria ser recebido com a solenidade reservada aos estadistas.
Se foi essa a razão, o governador de São Paulo encontrou uma maneira bastante original de expressar sua opinião.
Mas, se a intenção foi realmente fazer do tapete azul um símbolo político, então o episódio revela algo ainda mais preocupante: a crescente incapacidade de setores da direita brasileira de conviver com aquilo que é diferente de suas próprias convicções. Até uma cor passa a ser vista como ameaça.
No fundo, talvez o problema não esteja no vermelho do tapete. O problema está no medo que alguns demonstram de tudo aquilo que o vermelho representa.
E quando uma cor passa a incomodar tanto, é sinal de que a disputa política já ultrapassou os limites das ideias e chegou ao território dos símbolos, dos preconceitos e das obsessões ideológicas.

