O Brasil ficou órfão de uma oportunidade política rara com as mortes prematuras de Marcelo Déda e Eduardo Campos em 2013 e 2014, respectivamente. Em um cenário político frequentemente marcado pela repetição de lideranças e pela polarização, ambos representavam uma geração de políticos jovens, preparados e com forte capacidade de gestão, que poderiam ter renovado o debate nacional e disputado a Presidência da República em condições reais de protagonismo.
Marcelo Déda construiu sua trajetória com base no diálogo, na capacidade de articulação e em uma visão moderna da administração pública. Em Sergipe, destacou-se por buscar conciliar responsabilidade fiscal com políticas sociais, além de demonstrar habilidade para construir consensos em um ambiente político frequentemente fragmentado por disputas de poder. Sua inteligência peculiar, sua sólida formação intelectual e sua reconhecida capacidade de comunicação o credenciavam como uma liderança nacional em ascensão.
Um câncer agressivo interrompeu a vida de Marcelo Déda, e uma trajetória que vinha sendo desenhada que tinha muito a oferecer ao país. Déda estava no ápice de sua trajetória política quando veio a falecer. Antes, foi deputado estadual, em seguida eleito duas vezes deputado federal, depois eleito em 2000 prefeito de Aracaju e reeleito em 2004. Em 2006 alçou o governo do Estado de Sergipe, derrotando o histórico cacique João Alves, do PLF. Em 2010 foi reeleito governador. Veio a falecer no ápice de sua brilhante carreira. Fazia um governo extraordinário em Sergipe, reconhecido nacionalmente por unir capacidade política, técnica, oratória rica e refinada.
Marcelo Déda possuía também uma característica que faz diferença na atuação política: espírito militante. Sim, Déda foi forjado na rua, no sentimento dos que lutava por liberdade, por direito e pelo povo nos anos em que a democracia brasileira foi suprimida pelo golpe de 1964, e se arrastou até 1985.
Eduardo Campos, por sua vez, foi um dos governadores (2007/2010 e reeleito para 2011-2014) mais bem avaliados de sua geração. À frente de Pernambuco, associou eficiência administrativa, atração de investimentos e modernização da gestão pública a uma agenda de desenvolvimento regional que revolucionou Pernambuco e o Nordeste com apoio total dos Presidentes da República Lula e Dilma Roussef.
Neto do ex-governador e líder piopular Miguel Arraes, soube construir uma identidade própria, marcada pelo pragmatismo e pela disposição de inovar. Sua candidatura presidencial em 2014 simbolizava justamente a tentativa de apresentar ao Brasil uma alternativa que escapasse da disputa tradicional entre os principais grupos políticos da época. O acidente aéreo que tirou sua vida interrompeu não apenas uma campanha, mas também a trajetória de um líder que muitos enxergavam como um futuro presidente da República.
Nessa perspectiva, era possível projetar Marcelo Déda e Eduardo Campos subirem a rampa do Palácio do Planalto para receber a faixa no peito de presidente da República bem como fazerem um governo bem-sucedido. É legítimo sustentar que o Brasil perdeu a chance de testar lideranças com características cada vez mais raras: experiência administrativa acumulada ainda na juventude, capacidade de diálogo, visão estratégica e disposição para formular projetos nacionais de longo prazo.
Mais do que a perda de dois políticos promissores, suas mortes representaram a interrupção de um processo de renovação geracional que poderia ter enriquecido a democracia brasileira. Enquanto o país continuou orbitando em torno de lideranças já consolidadas e de disputas cada vez mais polarizadas, Déda e Campos permaneceram como símbolos de um futuro que não chegou a acontecer. Nesse sentido, o Brasil tornou-se órfão dois homens públicos extraordinários, forjados na militância, que conheciam as dores do povo, a realidade social e estrutural brasileira.
Marcelo Déda e Eduardo Campos foram lideranças políticas que poderiam ter ocupado o centro da cena nacional na atual fase, estando-os certamente ainda mais amadurecidos para conduzir o debate nacional, unindo o país com propósitos de grande interesse nacional.

