Vorcaro editava matérias e pautava portal Metrópoles, indicam mensagens apreendidas pela PF

A PF investiga o pagamento de R$ 2 milhões por Daniel Vorcaro a influenciadores para atacarem o Banco Central.
(Foto: Reprodução)

Conforme mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro divulgadas pelo portal UOL, a direção do portal Metrópoles submetia reportagens ao dono do Banco Master, atendia pedidos de edição e sugeria pautas para o favorecimento de negócios da instituição financeira.

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Vorcaro teria estabelecido linha direta com a CEO do grupo Metrópoles Lilian Tahan em maio de 2024 após um encontro promovido pelo assessor de imprensa do Banco, Guilherme Barros.

Um dia após a reunião Barros teria enviado a Vorcaro uma mensagem sobre a recepção da CEO ao ex-banqueiro. “A Lilian gostou muito de vc. Foi muito bom ter te colocado com o Luis Estevão. Eu tenho o contato dele, mas acho melhor ela mesmo fazer essa ponte, concorda?”, referindo-se ao ex-senador Luiz Estevão, dono do veículo e que passou ao regime aberto em 2021 após cumprir pena por desvio de recursos públicos.

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Nos meses seguintes, Vorcaro passou a ler e editar textos antes de irem ao ar. Um levantamento do UOL apontou que ao menos 14 matérias do site foram enviadas previamente ao ex-banqueiro, sendo que 11 foram alteradas após seus pedidos e duas foram publicadas a pedido do próprio dono do Master.

Em abril de 2025, ao enviar um perfil sobre o empresário, Lilian Tahan escreveu a Vorcaro: “se tiver alguma incorreção, me avise!! Não publicarei sem nos falarmos”. Questionada sobre a prática, a executiva afirmou que “checar com a fonte se a matéria reflete o contexto passado para o veículo é uma prática que adoto com personalidades empresárias, da política e do Judiciário”.

As mensagens também mostram a evolução dos contratos comerciais entre as partes. Um mês após a reunião inicial, o Master pagou R$ 1 milhão ao Metrópoles. Em julho, foram acertados R$ 900 mil adicionais para financiamento de projetos de “educação financeira” da seguradora Kovr e do banco digital Will. Em novembro de 2024, Tahan apresentou uma nova proposta e o valor final fechado foi de R$ 20 milhões, conforme diálogo entre a diretora de marketing Ana Matos e Vorcaro.

Na conversa, Ana Matos comentou: “tá caro esse Metrópoles”. O ex-banqueiro respondeu: “coisa mais importante [da] nossa vida é esse Metrópoles”. Dois dias depois, ele completou: “dei ok pra Lilian”. Na sequência, a diretora de marketing questionou: “o valor que fechamos com o Metrópoles (20 mi) eu faço todo no CNPJ banco ou divido com Kovr e Will?”. O montante foi quitado pelo Master em 2025 em parcelas de R$ 5 milhões.

Lilian Tahan declarou que o contrato de publicidade não tinha relação com a cobertura jornalística sobre o banco: “basta ver a quantidade de matérias publicadas pelo Metrópoles expondo a situação das empresas de Vorcaro, tais como Banco Master, Ambipar, Fictor, Oncoclínicas dentre outras”, afirmou.

As edições ocorriam enquanto o Master enfrentava grave crise financeira e tentava aprovação do Banco Central para vender 58% de seu capital ao BRB, banco estatal do Governo do Distrito Federal. Em 2 de abril de 2025, Vorcaro reclamou de uma publicação sobre uma suposta oferta de compra de ativos por R$ 1: “Proposta de 1 real nunca existiu!”. Tahan respondeu: “Tiramos”.

Em 9 de abril, Tahan ofereceu o envio de um documento físico que chegou à redação. No dia seguinte, sugeriu uma pauta: “me diga o que acha: um comparativo entre o balanço dos bancos. Ajuda ou atrapalha?”. Vorcaro respondeu: “pode ser bom! Eu conseguiria dar uma olhada antes pra checar os dados”. Tahan assentiu: “claro!”. O texto foi publicado após passar pelo ex-banqueiro. Em maio, o empresário solicitou: “pode retirar Hapvida do texto?”, em matéria sobre venda de ativos ao BTG Pactual, pedido aceito por Tahan.

O ex-banqueiro também atuou na cobertura sobre Renato Gomes, diretor do Banco Central responsável pela análise da fusão com o BRB e que posteriormente se opôs ao negócio, levando o Master à liquidação extrajudicial. Em agosto de 2025, ao receber a prévia de uma entrevista com o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, Vorcaro orientou: “acho que o texto ta otimo. Mas eu nao falaria tanto do renato, concentraria essa materia no roberto. Senao perdemos o suspense da batida dele! Guardaria essa parte do texto sobre o renato pra materia dele!”. O pedido foi cumprido.

Dias depois, Tahan submeteu o perfil “Técnico ou político? Quem é Renato Gomes”. Vorcaro pediu ajustes: “eu retiraria a parte de falência do banco”. Ele também sugeriu incluir “que há um racha no Bacen e Renato estaria contra” e adicionar “especulações de que, após seu mandato, estaria de malas prontas pra um dos bancões”. Tahan respondeu: “vamos publicar, ok??” e acatou todas as solicitações. No dia seguinte, ao receber um texto sobre um projeto que permitiria ao Congresso demitir diretores do Banco Central, Vorcaro indicou: “tiraria a última frase”.

A respeito de Renato Gomes, Tahan argumentou que ele “tornou-se personagem relevante por ter se posicionado de forma contrária à aquisição do Master pelo BRB, valendo lembrar que o BRB é o banco estatal de Brasília e o assunto sempre foi de grande interesse para um veículo que, prioritariamente, cobre os assuntos da capital federal”.

Ainda em agosto de 2025, Vorcaro pediu interferência na cobertura sobre Ricardo Cappelli, pré-candidato de oposição ao governo do Distrito Federal e crítico da transação Master-BRB: “esse Cappelli, você não consegue dar uma freada essa semana? Depois ele volta!”. Tahan respondeu: “deixa comigo”.

Sobre esse trecho, Tahan disse que Luiz Estevão “sempre foi um crítico ferrenho da compra do Master pelo BRB e, inclusive, forneceu a Cappelli várias análises sobre problemas detectados em balanços do BRB que demonstravam a inviabilidade da operação”.

A troca de mensagens seguiu até o dia da prisão de Vorcaro, em 17 de novembro de 2025. Na data, Tahan enviou reportagens sobre a venda do Master à Fictor antes de irem ao ar e escreveu ao ex-banqueiro após fazer as edições solicitadas: “publicada hahahaha”.

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