Nos primeiros dias de 1958, voltava a morar em João Pessoa, dessa vez de forma definitiva. Começava ali a construção da minha história vinculada à cidade que me deu identidade pessoal; onde estudei, firmei relações sociais, trabalhei e constituí família. É o berço natal de todos os meus filhos e netos, e, até hoje, incorporo-me a todos os seus movimentos de dinâmica urbana. Conseguimos firmar um pacto de amor que jamais se findará.
Ao chegarmos, meu pai foi surpreendido pela desistência da proprietária de um imóvel em manter o contrato de aluguel anteriormente acertado. Diante dessa circunstância inesperada, fomos obrigados a nos alojar na casa de uma tia de meu pai, Mercês Saldanha, que residia na Praça do Bispo, exatamente no famoso Casarão dos Azulejos. Portanto, minha trajetória como pessoense iniciava-se conhecendo, por dentro, um dos maiores patrimônios culturais da cidade.
Lembro-me de que, na varanda do prédio, encantado com a nova vida que me era oferecida, eu ouvia, logo cedo, os gazeteiros anunciando as manchetes dos jornais que circulavam na época. Não era costume adquiri-los em bancas de revistas, nem sei se elas já existiam. Tudo era novo para mim.
É interessante notar como, durante todo o curso da minha vida, relacionei-me com locais, cargos e fatos ligados ao mundo cultural. Meus primeiros dias na capital situaram-se no Centro Histórico, justamente no edifício que, por algum tempo, sediou o órgão público responsável pelas políticas culturais do Estado.
A partir daquele janeiro de 1958, minha vida seria moldada pelas oportunidades que a capital paraibana me ofereceria. João Pessoa ainda conservava ares de cidade provinciana, mas já era encantadora, com suas ruas arborizadas e um povo acolhedor. Tratava-se, então, do marco zero de um novo tempo. Eu passava a ser o mais novo pessoense.
Quarenta anos após aquele marcante janeiro, minha ligação com a capital paraibana ganharia o seu mais alto selo de oficialidade. Por propositura do vereador Mario Cahino, fui agraciado pela Câmara Municipal com o título de Cidadão Pessoense. Receber tamanha honraria foi o reconhecimento formal de um pacto que meu coração já havia assinado décadas antes: o de que, embora não tenha nascido em João Pessoa, a cidade escolheu-me como filho, e eu a escolhi como meu eterno lar.
