Deputada pede ao TSE e à PGR investigação sobre imóvel usado por Flávio Bolsonaro

Luciene Cavalcante quer apuração sobre possível benefício eleitoral relacionado a apartamento que pertenceu a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro

A “tática diversionista” adotada pelo candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, para tentar desviar a atenção de seu envolvimento no caso Dark Horse dificilmente produzirá os efeitos que deseja. Passados mais de três meses desde a revelação de seu pedido de dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, supostamente destinado ao financiamento de um filme biográfico sobre seu pai, e diante da ausência, até agora, de documentação capaz de demonstrar de forma convincente a aplicação dos R$ 61 milhões recebidos, o candidato responde às indagações dizendo que o assunto é “página virada” e que quem deve prestar contas é Lula. Siga o canal do WSCOM no Whatsapp. Como assim? O que o presidente Lula tem a ver com as questões que envolvem Flávio Bolsonaro? Recorre-se, mais uma vez, à velha estratégia de responder às acusações dirigindo a pergunta para outro lado: “E o Lula?”. É como se a simples menção ao presidente fosse suficiente para apagar as dúvidas existentes. Não é. O assunto não pode ser considerado página virada enquanto permanecerem sem respostas perguntas fundamentais. O romance ainda está nas primeiras páginas, e há muito conteúdo a ser conhecido. Talvez seja justamente isso que incomode: a possibilidade de que as páginas seguintes revelem informações que não sejam bem recebidas por aqueles que defendem o candidato. As questões continuam à espera de esclarecimentos. Qual foi o roteiro do dinheiro recebido? Como os recursos foram efetivamente aplicados? Por que parte do dinheiro teria sido enviada para uma conta nos Estados Unidos administrada por um advogado ligado a seu irmão, que enfrenta problemas com a Justiça ? São perguntas que não podem ser respondidas simplesmente com um “e o Lula?”. Quem pretende disputar o mais importante cargo da República precisa assumir a responsabilidade de esclarecer fatos que lhe dizem respeito. A candidatura exige, além de discursos e promessas, transparência e disposição para prestar contas. Enquanto essas perguntas permanecerem sem respostas convincentes, a chamada “página virada” continuará aberta. A tática diversionista, portanto, não resolve o problema. Apenas tenta mudar o foco daquilo que realmente precisa ser esclarecido.

A deputada federal Luciene Cavalcante (PSOL-SP) apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e à Procuradoria-Geral da República (PGR) pedidos de investigação sobre o uso de um apartamento em São Paulo durante a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL). O imóvel pertence atualmente a uma empresa ligada ao advogado Willer Tomaz e já esteve em nome de Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro.

A representação entregue à Justiça Eleitoral questiona se a utilização do apartamento durante atividades de campanha representou algum benefício econômico que deveria ter sido registrado na prestação de contas. A parlamentar também solicita que seja investigada a possibilidade de abuso de poder econômico.

Entre as medidas solicitadas ao TSE está a proibição do uso do imóvel pela campanha, além da preservação de imagens e registros de entrada e saída do edifício. A deputada também pede acesso a documentos relacionados à propriedade e às negociações envolvendo o apartamento.

O caso foi revelado pelo colunista Lauro Jardim, de O Globo, nesta sexta-feira (18). Reportagem da revista piauí havia informado que Flávio permaneceu no imóvel durante alguns dias da primeira quinzena de agosto, enquanto cumpria compromissos eleitorais em São Paulo.

Pedido à PGR

Além da representação eleitoral, Luciene Cavalcante encaminhou uma notícia-crime à PGR. O documento solicita que sejam verificadas as circunstâncias das transações envolvendo o apartamento, incluindo a origem dos recursos utilizados nas operações.

A parlamentar pede que sejam examinadas possíveis irregularidades relacionadas a documentos eleitorais, falsidade ideológica eleitoral, abuso de poder econômico e eventual ocultação ou dissimulação patrimonial.

A intenção, segundo a representação, é reconstruir as movimentações financeiras e documentais relacionadas ao imóvel, identificando os envolvidos nas negociações, os responsáveis pelos pagamentos e quem efetivamente utilizou o apartamento.

Apartamento foi usado durante campanha

Segundo a piauí, Flávio Bolsonaro ficou hospedado no apartamento localizado no edifício l’Adresse, na Vila Nova Conceição, em São Paulo, durante alguns dias de agosto. O imóvel tem cerca de 159 metros quadrados e três vagas de garagem.

A publicação informou que, durante a permanência no endereço, o candidato participou de reuniões com integrantes da equipe, gravou conteúdos eleitorais e cumpriu outros compromissos relacionados à campanha.

O apartamento havia sido comprado por Fabiano Zettel em abril de 2025 por R$ 5,5 milhões. Em fevereiro de 2026, o imóvel foi vendido por R$ 3,5 milhões à WT Administração de Imóveis e Bens, empresa ligada a Willer Tomaz, segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo.

Flávio nega ter ficado no imóvel

Flávio Bolsonaro negou à piauí que tenha se hospedado no apartamento e afirmou que utilizou hotéis durante sua passagem por São Paulo.

Willer Tomaz também negou ter relação com Fabiano Zettel e Daniel Vorcaro. Em manifestação divulgada à imprensa, o advogado afirmou que não mantém relação pessoal, comercial ou societária com os dois e rejeitou suspeitas de irregularidades relacionadas às suas atividades.

Até o momento, os pedidos apresentados por Luciene Cavalcante representam solicitações de investigação. Eventuais irregularidades ainda dependem de apuração pelos órgãos competentes.

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