O empresário Léo Serrano, dono da consultoria de serviços de luxo SL Consulting, relatou à Polícia Federal (PF) que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo proprietário do Banco Master, pagou US$ 38 mil por um serviço exclusivo de concierge destinado ao então diretor do Banco Central (BC) Paulo Sérgio Neves de Souza durante uma viagem a Orlando, nos Estados Unidos. As informações foram divulgadas pelo jornalista Ramiro Brites, do Metrópoles.
Serrano prestou depoimento por videoconferência na manhã de segunda-feira (24), na sede da PF, na Lapa, em São Paulo. A oitiva durou aproximadamente dez minutos e foi concentrada no atendimento oferecido a Souza. O delegado responsável pelo caso acompanhou o depoimento de Brasília.
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Segundo o empresário, a SL Consulting prestava serviços de alto padrão para Vorcaro e pessoas próximas a ele, incluindo organização de viagens, hospedagens e festas. Na viagem de Souza, porém, a empresa não teria participado da aquisição das passagens aéreas nem da contratação dos hotéis. A atuação ficou limitada ao fornecimento do profissional responsável pelo acompanhamento VIP nos parques.
O concierge teria cuidado de toda a parte operacional do passeio, incluindo compra de ingressos, reservas, pagamentos, agendamentos e acesso prioritário às atrações, evitando que o grupo enfrentasse filas. A viagem aconteceu no início de 2024, quando Souza ocupava o cargo de chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central. Antes disso, ele havia comandado a Diretoria de Fiscalização da instituição.
Para a PF, o pagamento do serviço pode estar relacionado a uma possível relação de troca de favores. Conversas obtidas pelos investigadores indicam que Vorcaro teria se mobilizado antecipadamente para oferecer o serviço de luxo à família de Souza durante a estadia em Orlando. Em outra frente, o ex-banqueiro teria recebido informações consideradas privilegiadas e sigilosas relacionadas ao funcionamento do órgão regulador do sistema financeiro.
Caso integra investigação da Operação Compliance Zero
O episódio está entre os elementos apurados pela Operação Compliance Zero. Em março, ao autorizar a terceira fase da investigação, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), apontou indícios de que Vorcaro teria corrompido o servidor público por meio de benefícios e de mecanismos financeiros supostamente utilizados para esconder a origem dos recursos.
Na decisão, Mendonça também citou mensagens trocadas pelo WhatsApp entre Souza e Vorcaro. Segundo o ministro, os diálogos indicariam que o empresário tomou conhecimento dos planos de férias do servidor nos Estados Unidos e, posteriormente, passou a organizar benefícios de alto valor para a viagem.
Formado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Paulo Sérgio Neves de Souza ingressou no Banco Central por concurso em 1998, após também ter trabalhado no Banco do Brasil. Entre 2019 e 2023, durante a gestão de Roberto Campos Neto à frente da autoridade monetária, ele ocupou a Diretoria de Fiscalização, considerada a principal posição de sua carreira dentro da instituição.
Souza foi afastado do Banco Central em 4 de março, quando a PF deflagrou a terceira fase da Operação Compliance Zero, por determinação judicial. Antes disso, em janeiro, o próprio Banco Central havia aberto uma sindicância interna para investigar possíveis irregularidades relacionadas à conduta ética e administrativa do servidor.
