WS: um estudo sobre a força histórica das nações desde Grécia, Roma, Inglaterra, EUA e mouros até chegarmos à China e à Índia; impressiona a transição

Walter Santos analisa como os modelos de poder evoluíram da Grécia Antiga até o atual embate econômico entre EUA, China e Índia.
(Foto: reprodução)

As diversas realidades de poder no mundo contemporâneo, também tomado de guerras e políticas inusitadas, como as recentes tarifas dos EUA ao Brasil, nos remetem à necessidade, de vez em quando, de buscarmos conhecer a história do poder de várias nações ao longo do tempo no mundo — algo que nos remete a estudos que merecem até a participação da IA (Inteligência Artificial) nesse processo.

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Aliás, um estudo sobre o poder e a superação de hegemonias no Ocidente não é uma linha reta. É uma sucessão de modelos. Cada império não apenas vence o anterior militarmente, mas cria um sistema superior para organizar riqueza, conhecimento e território.

A seguir, acompanhamos uma leitura atual de fases históricas no mundo, a partir do Ocidente, desaguando na nova era em que a China e a Índia oferecem novos modelos de poder.

O predomínio grego — 800 a.C. a 146 a.C.

O poderio: A ideia.

Os gregos nunca tiveram um império territorial gigantesco e unificado. O poder deles foi cultural e conceitual.

Como dominaram: Criaram o modelo que todo o Ocidente depois copiaria: filosofia racional, democracia, teatro, ciência dedutiva e a cidade-estado autônoma. Com Alexandre, o Grande, exportaram isso do Egito à Índia, criando o mundo helenístico.

Por que foram superados: Fragmentação política. As pólis viviam em guerra entre si. Foram incapazes de criar um estado territorial estável e um exército profissional permanente. Eram brilhantes, mas ingovernáveis.

O predomínio romano — 27 a.C. a 476 d.C.

O poderio: A estrutura.

Roma copiou tudo dos gregos e adicionou o que faltava: engenharia de poder.

Como superaram os gregos:

  • Direito: Criaram o Direito Romano, universal e escrito, em vez de leis locais.

  • Infraestrutura: Estradas, aquedutos e direito de cidadania para assimilar povos conquistados.

  • Exército: Legiões profissionais, logísticas e disciplinadas, não milícias de cidadãos.

Roma trocou a pergunta grega “o que é a verdade?” por “como isso funciona em escala para 50 milhões de pessoas?”.

Por que caíram: O modelo ficou caro demais. Inflação, guerras civis, fronteiras extensas demais para defender e dependência de mão de obra escrava, que estagnou a inovação tecnológica.

O predomínio mouro / islâmico — 711 a 1492 no contexto ocidental

O poderio: A ponte.

Quando o Ocidente cristão entrou na Idade Média e fragmentou seu poder, o mundo islâmico assumiu a liderança intelectual e econômica que fora greco-romana.

Como superaram o vácuo romano no Ocidente: Ocupando a Península Ibérica, os mouros trouxeram de volta Aristóteles — mas com comentários —, a matemática árabe, a álgebra, o zero, a medicina, a astronomia, a navegação por astrolábio e um sistema comercial que ligava o Atlântico ao Índico. Cidades como Córdoba tinham biblioteca e esgoto quando Londres e Paris eram vilas de madeira.

Por que foram superados no Ocidente: O poder islâmico no Mediterrâneo permaneceu comercial e cultural, mas politicamente fragmentado em califados e taifas. Enquanto isso, os reinos cristãos do norte desenvolveram uma tecnologia militar decisiva para superar a concorrência: a cavalaria pesada feudal, depois a pólvora e a caravela oceânica. A Reconquista foi menos uma vitória religiosa e mais uma vitória logística. Os ibéricos aprenderam a navegar em oceano aberto com os próprios mouros e usaram isso para contorná-los.

O predomínio inglês — 1588 a 1945

O poderio: O oceano e a indústria.

A Inglaterra resolveu o problema que derrotou todos os anteriores: como projetar poder globalmente sem falir.

Como superaram os ibéricos e os franceses:

  • Poder naval: Após vencer a Armada Espanhola, criaram a Royal Navy, uma força permanente financiada pelo Banco da Inglaterra e pela dívida pública moderna.

  • Modelo econômico: Não era apenas conquista, era comércio. Companhias de capital aberto, seguro marítimo, Bolsa de Londres.

  • Revolução Industrial: Foram os primeiros a transformar energia em poder. Carvão mais máquina a vapor igual a fábricas que produziam mais que impérios inteiros. Um inglês com um fuzil industrial valia por dez guerreiros.

O Império Britânico chegou a controlar 24% da superfície terrestre.

Por que foram superados: Duas Guerras Mundiais. A Inglaterra venceu militarmente, mas faliu financeiramente. O custo de manter o império ficou maior que o lucro. E seu maior sucessor, os EUA, era uma versão maior, mais rica e mais industrial do próprio modelo inglês.

O predomínio americano — 1945 a 2008

O poderio: A escala.

Os EUA são Roma com tecnologia britânica.

Como superaram os ingleses:

  • Escala continental: Recursos naturais infinitos, população imigrante, mercado interno gigante, protegido por dois oceanos.

  • Três pilares inseparáveis: Poder militar global, dólar como moeda de reserva mundial e soft power cultural e universitário. Hollywood, Harvard e o Pentágono.

  • Inovação contínua: Do fordismo à internet. Criaram um sistema onde a inovação gera riqueza que financia mais inovação.

Por que o modelo está sendo desafiado: O mesmo problema de Roma. Custo de manutenção global altíssimo, desindustrialização interna, polarização política e dívidas. Não foi derrotado militarmente, mas teve seu monopólio quebrado.

A disputa atual: China e Índia — 2008 até hoje

Aqui a lógica muda. Não é mais uma superação dentro do Ocidente, é o fim do monopólio do Ocidente.

China — O poderio: A fábrica e o Estado.

A China não está tentando ser mais ocidental que o Ocidente. Ela inverteu a fórmula inglesa. Em vez de empresa privada que cria o Estado, é o Estado que cria empresas gigantes.

Superou os EUA em capacidade industrial, controle de cadeias de suprimento, infraestrutura 5G, carros elétricos e patentes. Seu modelo é: eficiência logística e planejamento de longo prazo contra ciclos eleitorais curtos ocidentais.

Índia — O poderio: A demografia e o serviço.

Se a China é a fábrica, a Índia quer ser o escritório. É hoje o país mais populoso do mundo, com uma população jovem, anglófona e digital.

Não compete em porta-aviões, compete em cérebros, software, serviços e na capacidade de ser a alternativa democrática à China para o Ocidente.

Eis o resumo da ópera.

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