Lula discursa hoje na ONU; em entrevista, critica Trump e diz que eleição brasileira deve ficar fora da interferência dos EUA

Lula discursa hoje na ONU

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a criticar a política comercial do governo de Donald Trump e defendeu a soberania brasileira em entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da CNN, nesta segunda-feira (21). A conversa ocorreu em Nova York, na véspera do discurso de Lula na Assembleia Geral da ONU.

Entre os principais temas tratados estiveram as tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, a possibilidade de aplicação da Lei da Reciprocidade, as eleições brasileiras, a relação entre Washington e Venezuela e as limitações do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

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Ao comentar a política comercial de Donald Trump, Lula classificou o presidente americano como um “imperador” e rejeitou a ideia de que países mais fortes possam impor suas decisões aos demais.

“É um jeito de governar quando você diz que eu sou forte, eu sou maior, eu sou mais rico, eu posso tudo e o restante tem que obedecer. É a chamada lei do mais forte, eu não concordo com esse tipo de lei”, afirmou.

Lula também disse que o Brasil não pretende iniciar uma guerra comercial com os Estados Unidos e que a prioridade continua sendo a negociação. Segundo ele, caso não haja acordo, o governo poderá recorrer à Lei da Reciprocidade, aprovada pelo Congresso Nacional.

Na entrevista, o presidente afirmou que, após a adoção das tarifas americanas, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 9%, enquanto as importações caíram 8,5%. Segundo os números apresentados por Lula, o comércio brasileiro cresceu 20% com a China, 23% com a União Europeia, 18% com o Japão e 16% com a Alemanha. Também houve expansão das relações comerciais com Indonésia e Vietnã.

Ao todo, Lula citou crescimento médio de 10,5% nas relações comerciais com 57 países. Os números também aparecem na transcrição da entrevista divulgada pela CNN.

Eleições e possível interferência dos EUA

A disputa presidencial brasileira também foi abordada por Amanpour. Lula afirmou ter pedido a Donald Trump que os Estados Unidos não interfiram nas eleições brasileiras de outubro.

“Eu já disse ao presidente Trump, é o seguinte, é muito importante que os Estados Unidos não se metam nas eleições do Brasil. É muito importante, porque nós temos uma relação diplomática de 203 anos, é uma relação muito sólida e o Brasil não é um país anti-americanista. O Brasil tem uma relação muito sofisticada com os Estados Unidos”, declarou.

Segundo Lula, Trump teria dito a outras pessoas que não pretende se envolver no processo eleitoral brasileiro. O presidente brasileiro afirmou que espera que essa posição seja mantida.

Questionado sobre o secretário de Estado americano, Marco Rubio, Lula disse estar preocupado com uma possível interferência e mencionou suspeitas relacionadas ao uso de inteligência artificial.

“Já há indícios de interferência de inteligência artificial, eu estou muito preocupado com o Marco Rubio, porque o Marco Rubio é muito ligado ao pessoal do bolsonarismo, mas, por enquanto, é só suspeita. Mas se também se meter…”, afirmou.

O presidente também classificou como “traidores da pátria” pessoas que, segundo ele, deixaram o Brasil e passaram a atuar nos Estados Unidos em favor de medidas contra o país.

“Democracia ou barbárie”

A eleição brasileira foi descrita por Lula como uma disputa que envolve princípios políticos mais amplos do que a escolha entre candidatos e partidos.

“O que está em jogo hoje no Brasil não é apenas uma escolha entre nomes ou partidos. É uma escolha de princípios fundamentais: ou a democracia ou a barbárie; ou a preservação ambiental ou a destruição florestal; ou as políticas de inclusão social e renda ou o abandono da população pobre; ou o resgate da cultura ou o seu aniquilamento.”

O presidente também afirmou confiar no sistema eleitoral brasileiro e nas urnas eletrônicas.

Venezuela

A situação da Venezuela esteve entre os assuntos tratados na conversa. Lula criticou a atuação dos Estados Unidos no país e afirmou que a soberania venezuelana foi comprometida.

“É grave o que os Estados Unidos fizeram com a Venezuela. É lógico que é grave. Os Estados Unidos passam a ideia de que estão governando a Venezuela”, disse.

Em outro trecho, Lula afirmou: “Em todo documento que a gente lê, os acordos, é que os EUA estão mandando na Venezuela. Ou seja, a soberania do país acabou. Isso não é bom. Não é bom para os Estados Unidos, não é bom para a Venezuela e não é bom para a democracia”.

Como saída para a crise política venezuelana, Lula defendeu a realização de eleições para que, segundo ele, a condução do país volte às mãos da população.

Críticas ao Conselho de Segurança da ONU

A governança internacional também foi discutida por Lula. O presidente voltou a defender mudanças na estrutura das Nações Unidas e criticou o poder de veto dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança.

Na avaliação apresentada por Lula, a estrutura atual dificulta respostas internacionais diante de conflitos como a guerra em Gaza, a guerra na Ucrânia e as tensões no Estreito de Ormuz.

“Para que serve a ONU se os líderes mundiais apenas assistem calados aos conflitos e preferem gastar trilhões de dólares em bombas enquanto a fome, as doenças evitáveis e a crise climática ceifam vidas?”, questionou.

A defesa do multilateralismo e da soberania nacional deve estar entre os temas centrais do discurso de Lula na abertura da Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira (22). O presidente brasileiro será o primeiro chefe de Estado a discursar, conforme a tradição do encontro.

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