A Cidade Alta de João Pessoa, especialmente nos arredores da Rua General Osório, é o núcleo original da capital paraibana, pois foi ali que a cidade começou a se formar no século XVI. Diferentemente da orla, que hoje concentra grande parte do turismo, a Cidade Alta guarda a memória arquitetônica, religiosa e cultural da fundação do Município.
É lá, entre igrejas seculares, casario colorido, ruas de paralelepípedo e pequenos comércios e serviços criativos, que encontro um ambiente que mistura arte, história e vida cotidiana, onde tradição e contemporaneidade convivem.
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Portanto, é sobre essa área da cidade que foco este texto. Esclareço que as linhas a seguir não têm pretensão acadêmica ou literária e não é um inventário histórico nem um estudo aprofundado; trata-se apenas de uma sugestão de caminhada agradável, um roteiro pensado para quem, como eu, gosta de percorrer as ruas com calma, contemplar fachadas, observar detalhes artísticos e aproveitar os cafés, bares e ateliês que dão nova energia à região.
A proposta é simples: andar sem pressa, entrar onde der vontade, conversar, fotografar e, claro, assistir ao pôr do sol ou simplesmente apreciar a paisagem.
Informações gerais
Duração média: 3 a 4 horas (você não vai nem perceber o tempo passar).
Melhor dia: pode ser qualquer um, mas, às segundas-feiras, bares e museus normalmente estão fechados. As ruas ficam cheias de gente sobretudo aos sábados e a região da General Osório começa a ficar movimentada a partir do meio-dia para assistir ao “Sabadinho Bom”, um tradicional pagode que existe na Praça Rio Branco, na Rua Duque de Caxias.
Horário ideal para começar: entre 14h e 14h30.
Dica importante: o pôr do sol acontece geralmente entre 17h e 17h30, com pequenas variações ao longo do ano, e vale organizar o ritmo do passeio para aproveitar esse momento.
O começo: história e religiosidade: Inicie o passeio em frente ao cruzeiro do Centro Cultural São Francisco. O conjunto é um dos mais importantes exemplares do barroco no Brasil e merece uma visita exclusiva para ele e em outro momento, com calma, pois é amplo, repleto de histórias, arte e simbolismo.
Dali, siga caminhando em direção à Basílica Nossa Senhora das Neves, padroeira da cidade.
Antes de chegar, faça uma parada na charmosa Casa Azul (Casa Montenegro), uma floricultura-ateliê que também serve salgados e doces. Durante sua reforma, foi descoberto um porão que serviu de moradia para pessoas escravizada, detalhe que por si só já torna a visita significativa.
Reserve cerca de 15 minutos para cada parada, sem pressa.
A Basílica e o coração da cidade: Ao chegar à Basílica, observe com atenção a fachada: os detalhes decorativos, o relógio com símbolo marista e, sobretudo, a escultura branca de Maria.
Na praça ao lado, fincado no chão, quase despercebido, está o Marco Zero da cidade, ponto simbólico da fundação de João Pessoa, pois foi ali que os portugueses inicialmente acamparam e posteriormente construíram uma capela.
Ainda na praça, observe a imagem de Nossa Senhora de Lourdes, contemple o prédio do antigo Colégio Nossa Senhora das Neves, hoje destinado ao parque tecnológico do Estado. Se desejar estender um pouco a caminhada, visite a Casa da Pólvora.
Na esquina em frente à Basílica, o restaurante Bistrô 17 é parada estratégica para um café, um lanche ou, para os boêmios, até o primeiro copo do dia. A casa neocolonial é linda e abriga também uma pequena galeria de arte.
A rua mais antiga da cidade: Siga então pela Rua General Osório, considerada a primeira rua oficial da cidade.
Logo adiante está a imponente Igreja de São Bento. Observe a torre com inspiração medieval; os elementos barrocos tropicais, com conchas e frutas; o leão no topo segurando um báculo (cajado). A imagem de São Bento com o corvo, seu tradicional símbolo iconográfico, está num espaço ao lado da igreja, num pedestal.
Quase vizinho à igreja está o ateliê do artista plástico Sóter Carreiro. Vale entrar e conhecer o trabalho desse artista, cujas obras se inspiram sensivelmente no Centro Histórico.
Em frente, o bar Caravela Cultural convida a sentar nas cadeiras da calçada. O interior é decorado com grafites, há lojinhas, exposições e apresentações musicais frequentes.
Ao lado, o Tropicália Mutante mantém uma atmosfera vintage, com cds, discos em vinil, rádios antigos e objetos de estimação apresentados pelo proprietário. Um detalhe especial é a parede envidraçada que revela técnicas construtivas antigas, como o pau a pique.
Mais adiante, o Loka como Tu Madre é excelente para petiscos, cerveja gelada e cadeiras na calçada, sempre com boa brisa. O visitante pode ir também ver o por do sol na parte de trás do estabelecimento, onde há uma vista linda da Cidade Baixa do Centro Histórico.
Vizinha ao bar está a Loja Maçônica, com rica ornamentação de inspiração oriental e simbologia egípcia. Continue observando o casario histórico ao longo da rua.
Em frente à Loja Maçônica vá a estreita Rua Braz Florentino, chamada de Beco Cultural. Não deixe de ir à tradicional Cachaçaria Philipéia, referência ao primeiro nome da cidade. Lá o visitante encontra um bar raiz da cultura paraibana, com muitos objetos de sincretismo religioso nordestino, além de telas e fotos peculiares. Sugiro experimentar uma “lapada” de cachaça artesanal.
O pôr do sol: Volte à General Osório e entre na General Store. O local reúne lojinhas, bar e lanchonete, e é um dos melhores pontos para assistir ao entardecer.
Entre 17h e 17h30, o céu começa a mudar de cor e o Centro Histórico ganha uma atmosfera dourada difícil de descrever.
A foto clássica: Depois do pôr do sol, caminhe pelo meio da rua de paralelepípedos e registre a imagem clássica: a Basílica iluminada ao fundo. É provavelmente a fotografia mais emblemática e uma das mais divertidas da Cidade Alta à noite.
Encerrando em clima cultural: Siga pela Rua Duque de Caxias até o Café das Letras, um sebo cultural onde é comum encontrar escritores, músicos e artistas locais. Ali você pode beber algo, conversar e estender o passeio.
Se quiser prolongar a noite, há duas opções tradicionais. No bairro do Róger, ainda no entorno da General Osório, o churrasco do Bar do Pereira (recomenda-se ir de carro ou aplicativo), ou o clássico Bar do Bigode. Se escolher essa opção, aproveite para caminhar até a Igreja de Santa Terezinha e apreciar o belo visual noturno.
Encerre o passeio com vontade de fazê-lo novamente. Se você for boêmio, tome uma cerveja ou um drinque, pois a noite está só começando.
Omar Bradley
@omarbradley1 (atualizado até março de 2026)