Cícero imperador: Quando o marketing perde a eleição, por Napoleão de Castro

Por
Napoleão de Castro
De Brasília

A derrota de Cícero Lucena na disputa pelo Governo da Paraíba merece uma análise que vá além dos números.

E os números são duros: Cícero terminou em terceiro lugar, com apenas 11,06% dos votos válidos, muito distante dos 64,30% de Lucas Ribeiro.

Mas uma eleição não se perde apenas no dia da votação. Perde-se muito antes, quando a estratégia deixa de compreender o sentimento das ruas.

Cícero chegou à disputa carregando uma história política respeitável: foi governador, senador e prefeito de João Pessoa por quatro mandatos.

O problema foi transformar essa experiência em uma espécie de “Cícero Imperador”.

A campanha pareceu acreditar demasiadamente na força do próprio personagem e pouco na necessidade de construir uma nova conexão emocional com o eleitor.

Experiência, sozinha, não é mensagem.

Obras, currículo e realizações precisam ser traduzidos em sentimentos, esperança e futuro.

O marketing também falhou ao não perceber que o eleitor não estava necessariamente procurando o administrador mais experiente, mas aquele que melhor representasse o próximo capítulo da Paraíba.

A comunicação ficou presa ao passado enquanto o adversário conseguiu ocupar o imaginário do futuro.

Até mesmo a campanha oficial de Cícero apostou fortemente na experiência administrativa como diferencial.

E aqui está uma das grandes lições: quando o candidato precisa explicar repetidamente por que é experiente, talvez a comunicação já esteja falando mais do candidato do que do eleitor.

Outro problema foi a dificuldade de transformar propostas em uma narrativa simples, popular e mobilizadora.

Havia propostas para saúde, segurança, educação, água, emprego e infraestrutura.

Mas eleição não é concurso de plano de governo.

É disputa de percepção.

E percepção se constrói com narrativa, emoção, presença, identidade e capacidade de interpretar o momento.

A campanha também chegou a enfrentar questionamentos sobre sua própria estrutura de marketing, com notícias sobre o deslocamento de profissionais da agência que trabalhava para Cícero para outra campanha.

É preciso deixar claro: não se pode atribuir uma derrota dessa dimensão exclusivamente ao marketing.

Existem fatores políticos, alianças, conjuntura, governo, rejeição, estratégia e comportamento do eleitor.

Mas o marketing tem uma responsabilidade enorme: transformar um candidato em uma mensagem compreensível para a maioria.

Nesse ponto, Cícero parece ter sido maior que sua própria campanha.

O “Cícero Imperador” venceu talvez a batalha da biografia, mas perdeu a batalha da comunicação.

E eleição se ganha quando o eleitor olha para o candidato e pensa: “ele representa o que eu quero para o meu futuro”.

Essa conexão não aconteceu.

A derrota de Cícero, portanto, não é apenas uma derrota eleitoral.

É também um alerta para os marqueteiros: não basta vender o que o candidato foi; é preciso comunicar aquilo que ele pode representar daqui para frente.

Porque, na política moderna, quem não consegue conversar com o futuro acaba sendo derrotado pelo presente.

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