Durante muito tempo, falar em inovação dentro das empresas era quase sinônimo de falar em grandes laboratórios, tecnologias disruptivas ou produtos completamente novos. Hoje, essa visão ficou pequena.
Inovar também é digitalizar um processo, automatizar uma atividade, utilizar Inteligência Artificial para tomar decisões melhores, vender por novos canais, melhorar a experiência do cliente, aumentar a produtividade ou adaptar rapidamente a empresa a uma nova legislação.
É nesse contexto que a Lei do Bem ganha uma importância que vai muito além do benefício fiscal. Ela pode ser uma importante ferramenta para ajudar as empresas brasileiras a construir uma verdadeira Cultura da Inovação.
A Lei nº 11.196/2005 criou mecanismos de incentivo fiscal para empresas que realizam atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica. Na prática, ela cria condições para que parte dos recursos destinados à inovação possa retornar para a própria empresa, fortalecendo o ciclo de investimentos em novos conhecimentos, processos e tecnologias.
Mas existe um efeito ainda mais importante: a mudança de mentalidade.
Quando uma empresa passa a identificar, registrar, medir e estruturar seus projetos de inovação, ela começa a enxergar inovação não como um evento isolado, mas como parte da estratégia do negócio.
E isso muda tudo.
Pensemos, por exemplo, na Inteligência Artificial. A adoção de IA pode começar com uma ferramenta simples para aumentar a produtividade de uma equipe. Depois, pode avançar para automação de processos, análise de dados, atendimento ao cliente, personalização de ofertas, previsão de demanda e apoio à tomada de decisão.
O mesmo acontece com a digitalização.
Uma operação que antes dependia de processos manuais pode ganhar velocidade e precisão por meio de sistemas integrados. As vendas podem deixar de acontecer exclusivamente nas lojas físicas e incorporar e-commerce, marketplace, aplicativos e estratégias omnichannel. Processos repetitivos podem ser automatizados. Indicadores podem passar a ser acompanhados em tempo real.
Tudo isso é transformação do negócio.
E existe um ponto fundamental: inovação não precisa necessariamente criar algo que nunca existiu no mundo. Ela precisa criar valor novo para a empresa.
Uma solução que reduz custos, aumenta produtividade, melhora a qualidade, diminui erros, acelera processos ou melhora a experiência do cliente pode representar uma inovação extremamente relevante.
Até mesmo a necessidade de adaptação a novas legislações pode estimular inovação. Mudanças regulatórias frequentemente exigem revisão de processos, sistemas, controles e modelos operacionais. Empresas que conseguem transformar essa necessidade em oportunidade podem sair da simples adequação e construir soluções mais eficientes.
É aqui que a Cultura da Inovação se diferencia de um conjunto de projetos de inovação.
Projeto tem começo, meio e fim.
Cultura permanece.
Uma empresa com cultura de inovação começa a fazer perguntas diferentes: Como podemos fazer melhor? Como podemos fazer mais rápido? O que pode ser automatizado? Onde estamos desperdiçando recursos? Como a tecnologia pode melhorar a experiência do cliente? Como os dados podem apoiar nossas decisões? Como podemos transformar uma obrigação em oportunidade?
Essas perguntas, quando incorporadas ao cotidiano da organização, produzem um ambiente muito mais preparado para a competitividade.
E competitividade, no fim das contas, precisa aparecer nos resultados.
Inovação precisa contribuir para rentabilidade, produtividade, qualidade, velocidade, experiência do cliente e sustentabilidade do negócio. Tecnologia por tecnologia não transforma uma empresa. O que transforma é a capacidade de utilizar tecnologia, conhecimento e criatividade para resolver problemas e gerar valor.
A Lei do Bem pode contribuir justamente para acelerar esse movimento.
Ao estimular investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação, ela ajuda a criar um ciclo virtuoso: a empresa investe em inovação, desenvolve conhecimento, melhora seus processos, aumenta sua produtividade, torna-se mais competitiva e passa a ter melhores condições para continuar investindo.
No varejo, na indústria, nos serviços ou em qualquer outro setor, essa capacidade de adaptação será cada vez mais determinante.
Estamos vivendo uma época em que a velocidade da mudança deixou de ser uma exceção. A Inteligência Artificial avança, os hábitos dos consumidores mudam, novos canais de venda surgem, legislações são atualizadas e novos concorrentes podem aparecer de lugares que antes pareciam distantes.
Nesse cenário, talvez a pergunta mais importante não seja “quanto a empresa investe em inovação?”
Mas sim:
“Quanto a inovação já faz parte da forma como a empresa pensa, decide e trabalha?”
Quando essa resposta começa a fazer parte da estratégia, dos processos e da rotina das pessoas, a inovação deixa de ser apenas um investimento.
Ela passa a ser cultura.
E empresas que constroem essa cultura não estão apenas se preparando para o futuro.
Estão construindo, hoje, a capacidade de competir amanhã.
Filipe Andson
Gestor e mentor com vasta experiência na transformação dos negócios por meio da Gestão e Liderança. Há 16 anos, faz parte do board diretivo de uma grande empresa varejista brasileira, atualmente como CDO do grupo. Diretor de Tecnologia da ABRH e ex-VP de Planejamento e Governança do PMI. Criador do Framework Gestão Alto Impacto e Escritor de livros sobre gestão e uso de Inteligência Artificial para gestores.
