O dilema do eleitor indeciso, por Rui Leitão

Quaest: 37% do eleitorado geral diz querer votar menos em candidatos que faltam a debates

Ontem, ao sair do trabalho, tomei um Uber para voltar para casa. Durante o trajeto, o motorista mantinha o rádio sintonizado em uma emissora local. De repente, entrou no ar uma das inserções do guia eleitoral para a eleição presidencial.

O motorista aproveitou para me perguntar em quem eu votaria. Respondi que meu voto seria em favor da democracia e da soberania nacional, sem identificar o nome.

Ele ficou alguns segundos em silêncio e, depois, fez uma observação que me chamou a atenção: “Estou em reflexão. Ainda não decidi em quem vou votar. Não simpatizo com Lula e nunca votei no PT. Mas, por outro lado, também não me sinto motivado a votar no principal adversário do presidente.”

E continuou: “É por isso que estou num dilema. Mas, como o senhor disse, eleger o adversário de Lula pode significar dar oportunidade para que sejamos tutelados pelo atual governo norte-americano.

Poderíamos correr o risco de comprometer nossa soberania e transformar o Brasil em uma espécie de colônia dos Estados Unidos. Então, não vejo outra alternativa senão, pela primeira vez na minha vida, votar no PT. Para mim, é uma questão de preservar a democracia e a soberania do país.”

Aquela conversa ficou na minha cabeça. Não se tratava de um militante petista. Não era alguém que escondia sua antipatia por Lula. Era, segundo suas próprias palavras, um eleitor que jamais havia votado no PT e que ainda não tinha decidido seu voto.

Seu dilema, porém, não estava sendo resolvido pela simpatia pessoal por um candidato. Estava sendo colocado em outros termos: que projeto de país está em jogo? O que acontecerá com a democracia? Qual será o grau de autonomia do Brasil diante das grandes potências?

É justamente aí que está uma questão importante desta eleição. Não se pode afirmar, a partir de uma única conversa, que todos os indecisos estejam caminhando na mesma direção. Cada eleitor tem suas próprias razões, convicções e dúvidas. Mas o episódio revela uma possibilidade que merece ser observada: há eleitores que podem não votar em Lula por identificação política, mas por considerarem que, diante das alternativas colocadas, a defesa da democracia e da soberania nacional deve prevalecer sobre suas preferências pessoais.

Esse talvez seja um dos aspectos mais importantes da reta final da campanha. Há momentos em que uma eleição deixa de ser apenas uma escolha entre candidatos e passa a envolver valores que ultrapassam os partidos. Democracia, soberania, independência nacional e respeito às instituições não deveriam ser tratados como questões secundárias.

Foi isso que aquele motorista me disse, talvez sem perceber a dimensão política de sua própria reflexão: ele não estava escolhendo apenas um candidato. Estava tentando decidir que Brasil queria ajudar a construir.

E essa é uma reflexão que pertence a cada eleitor. Inclusive àqueles que ainda estão indecisos.

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