O perigoso voto dos que silenciam

CVM condena Daniel Vorcaro e Banco Master por fraude e aplica R$ 201 milhões em multas
(Foto: Reprodução / Esfera)

É impressionante o silêncio de algumas pessoas. São as mesmas que, no passado, gritavam pela prisão de Lula por causa de um triplex avaliado em pouco mais de R$ 1 milhão, imóvel que, posteriormente, foi reconhecido pela Justiça como não pertencente a ele. Naquela época, qualquer suspeita era suficiente para provocar indignação, manchetes, panelaços e discursos inflamados sobre moralidade.

Hoje, diante de uma investigação envolvendo dezenas de milhões de reais, parece que o microfone que funcionava tão bem entrou misteriosamente em manutenção.

O caso agora envolve o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro e o então dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. Segundo as investigações da Polícia Federal, Vorcaro teria repassado cerca de R$ 61 milhões para a produção do filme Dark Horse, uma cinebiografia de Jair Bolsonaro, após pedido de Flávio. O senador reconheceu ter procurado Vorcaro para obter recursos e permanece afirmando que não houve qualquer irregularidade. O caso está sendo investigado pela Polícia Federal, com autorização do Supremo Tribunal Federal.

E continuam no ar perguntas que precisam ser respondidas: como esses recursos foram utilizados? Quem recebeu o dinheiro? Qual foi o destino de cada parcela? Houve prestação de contas integral? E existe alguma relação entre esses pagamentos e eventuais interesses políticos ou vantagens indevidas?

São perguntas legítimas. Significam apenas aquilo que deveria valer para todos: dinheiro precisa ser explicado, investigação precisa ser realizada e a Justiça precisa chegar aos fatos.

Quando o investigado era Lula, bastava uma suspeita para setores da sociedade exigirem explicações, investigação, condenação e prisão. Agora, quando a investigação alcança alguém do outro lado do espectro político, surge outra filosofia: “calma, gente, vamos esperar”

A indignação seletiva é incompatível com uma democracia madura. Para o adversário, lupa; para o aliado, cortina de fumaça. Para o adversário, suspeita vira escândalo; para o aliado, escândalo corre o risco de virar “página virada”. Para o adversário, cada centavo precisa ser explicado; para o aliado, dezenas de milhões podem aguardar.

Não pode ser assim. A democracia exige a mesma régua moral para todos. Não existe corrupção de esquerda ou corrupção de direita. Não existe dinheiro suspeito que mereça investigação apenas quando envolve o adversário. A verdade não pode ter partido político. A transparência não pode ter ideologia. E a Justiça não pode funcionar conforme a conveniência eleitoral de cada momento.

É justamente por isso que esta eleição exige atenção redobrada. Não estarão em disputa apenas nomes, partidos e programas de governo. Estarão em discussão valores fundamentais: democracia, Estado de Direito, soberania nacional, respeito às instituições e compromisso com a verdade.

No dia da eleição, cada cidadão terá nas mãos uma decisão que ultrapassa a escolha de um candidato. O voto será também uma manifestação sobre o país que queremos construir e sobre os valores que desejamos preservar. Não podemos entregar o futuro do Brasil à omissão, à memória seletiva ou a duas réguas morais. Democracia não se defende apenas com discursos: defende-se com consciência, responsabilidade e voto.

Que ninguém se engane: quando o cidadão silencia diante do que considera errado, o silêncio também participa da escolha. E, nas urnas, o silêncio também vota. E traz consequências., muitas vezes irreversíveis.

Rui Leitão

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