Quando o dinheiro bate à porta do poder, por Rui Leitão

A PF investiga o pagamento de R$ 2 milhões por Daniel Vorcaro a influenciadores para atacarem o Banco Central.
(Foto: Reprodução)

Há algo especialmente perigoso quando o dinheiro deixa de tentar comprar apenas negócios e começa a cortejar o poder. É nesse momento que a corrupção deixa de ser apenas um crime contra o patrimônio público e passa a ameaçar a própria credibilidade das instituições.

O caso Daniel Vorcaro expõe, segundo as informações que vêm sendo reveladas, uma teia de relações que alcança o mundo político, empresarial e também pessoas ligadas ao Poder Judiciário. São fatos que precisam ser investigados até as últimas consequências, sem proteção para ninguém e sem seletividade.

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O mais grave, entretanto, não é apenas descobrir quem esteve próximo de quem. É saber se o poder econômico conseguiu criar canais privilegiados de acesso a instituições que deveriam manter distância absoluta de interesses particulares.

O Supremo Tribunal Federal não é uma empresa privada, nem um clube de relações pessoais. É uma instituição de Estado. Seus ministros exercem uma parcela extraordinária do poder da República e, por isso mesmo, precisam estar acima de qualquer suspeita razoável.

Quando surgem contratos milionários, mensagens, encontros e relações com personagens envolvidos em um dos maiores escândalos financeiros do país, a resposta não pode ser simplesmente pedir que a sociedade acredite nas explicações apresentadas. Quem exerce poder público precisa compreender que transparência não é favor: é obrigação.

E não se trata de condenar antecipadamente ninguém. Trata-se de exigir investigação, esclarecimento e responsabilidade. Se não houve irregularidade, que os fatos sejam esclarecidos e as dúvidas eliminadas. Se houve abuso, tráfico de influência ou qualquer outra ilegalidade, que os responsáveis respondam por seus atos, independentemente do cargo que ocupem.
O que não pode acontecer é a velha lógica brasileira segundo a qual o poderoso sempre encontra uma forma para escapar da prestação de contas.

O país já viu esse filme muitas vezes. Primeiro vêm as relações. Depois, os favores. Em seguida, aparecem os contratos, os interesses cruzados e as justificativas. E, quando a sociedade percebe, aquilo que deveria ser uma relação institucional transformou-se numa perigosa promiscuidade entre dinheiro e poder.

O Supremo precisa ser preservado. Mas preservar o Supremo não significa proteger ministros de perguntas incômodas. Significa justamente exigir deles o mais alto padrão de transparência. A Corte que cobra responsabilidade de todos os demais poderes precisa aceitar que também está submetida ao escrutínio da sociedade.

O Brasil está perplexo. E o escândalo ainda está longe de chegar ao último capítulo.. A sociedade quer saber: quem abriu as portas, quem entrou por elas e, principalmente, o que foi oferecido em troca?

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